Crônicas de viagem, de Cecília Meireles
O olhar sensível que capta as mais ocultas intimidades, abraça também o estrangeiro, o estranho, o longínquo e o que há de exuberante bem perto de nós, aqui no Brasil. Cecília Meireles é poeta quando é cronista. Essa característica faz dos três volumes de Crônicas de viagem, lançados num charmoso box pela Global Editora, uma viagem em si, especialíssima.
Aqui, reproduzimos trecho da primeira crônica, do primeiro volume. Imagine como foi para os leitores do jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, quando no dia 23 de outubro de 1941 puderam se surpreender com este texto:
A Bela e as Feras
Cecília MeirelesIsso foi um domingo, no México.
Tínhamos um chofer entendido em sociologia, turismo e pintura. Em sociologia, fez-me um resumo da história política de seu país; em pintura, declarou-me não estar em acordo com Diego Rivera; em turismo, levou-nos a todos os sítios por ele julgados pitorescos e, aquele sábado, recomendou-me com fervor de especialista o espetáculo do dia seguinte.
Foi difícil arranjar lugares. Sábado à tarde, já estavam quase todos vendidos. Pareciam-me muito caros; mas disseram-nos, ao vendê-los, que seria uma coisa soberba – como garantindo que não nos arrependeríamos daquele emprego de capital. A moça era peruana. Muito jovenzinha. Junto com o troco dos bilhetes, deram-nos a sua idade exata: apenas dezessete anos.
*
Não fez o sol que eu desejava. Muito ao contrário: havia nuvens e nuvens que se alastravam lentamente, fazendo entardecer antes do tempo. Lembro-me do vento que movia um pouco a areia do caminho. “Tem cuidado com o relógio!”, disseram por perto. Os outros riram-se. Falava-se espanhol, inglês, português. As senhoras estavam encantadas com os seus vestidos. Os homens, muito nervosos. Apregoavam coisas pela porta. Lembro-me de papéis coloridos: vermelhos, amarelos, azuis, que o vento à força desenrolava. Lembro-me de refrescos. E era tão grande o lugar, que todos conversavam, discutiam, riam-se – e tudo parecia silêncio. Viam-se nuvens passar muito grandes, por cima. Por entre os bancos, apareciam e desapareciam indiozinhos mexicanos, de olhos maliciosos, sorriso imperceptível.
*
Ela eradelgada, branca e loura. Tinha dezessete anos. Estava toda de preto. Montava admiravelmente. Quando levantou a cabeça para agradecer os aplausos, sob as abas retas do chapéu, de tira passada pelo queixo, brilharam seus grandes olhos claros, exatamente como duas águas-marinhas.
Deu uma volta pela arena, exibindo por todos os lados sua esbelta e sóbria elegância. De costas, via-se-lhe a trança de ouro suave enrolada sobre a nuca. A multidão já começava a uivar. Um aficionado deu início ao espetáculo, atirando-lhe aos pés um ramo de flores.
Sendo tão delgada e branca e loura, ela me fazia pensar num modelo de santa gótica. Mas era toureira. Toureira.




