Cecília Meireles em três poemas de Canções
A poesia não é sempre uma porta escancarada. Às vezes, é preciso persistência para enfim “entrar” na obra de determinados autores. Por exemplo, o crítico e poeta Antonio Carlos Secchin disse sobre o livro Solombra, de Cecília Meireles, que é feito por poemas muitas vezes de difícil entendimento racional e que aí mesmo está a chave para eles: a percepção sensorial.
Na apresentação do livro Canções, o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos abre a porta e convida à leitura de Cecília: “este livro reúne, em poemas breves, ritmados e líricos, com uma linguagem despojada e acessível, as principais características de sua tessitura poética”.
Aqui, nosso convite para esse livro, um poema de cada parte que o compõe: Canções, Ciclo do Sabiá e Jogos Olímpicos:
Assim moro em meu sonho:
como um peixe no mar.
O que sou é o que vejo.
Vejo e sou meu olhar.Água é o meu próprio corpo,
simplesmente mais denso.
E meu corpo é minha alma,
e o que sinto é o que penso.Assim vou no meu sonho.
Se outra fui, se perdeu.
É o mundo que me envolve?
Ou sou contorno seu?Não é noite nem dia,
não é morte nem vida:
é viagem noutro mapa,
sem volta nem partida.Ó céu da liberdade,
por onde o coração
já nem sofre, sabendo
que bateu sempre em vão.
IV
Já não há mais dias novos,
Sabiá…
O mundo já se acabou.
Não há rios, não há montes,
nem luzes nos horizontes.
Morreram terras e povos,
Sabiá…
(Quem te escutou?)Plumoso, pequeno, frio,
Sabiá,
teu corpo em que areia jaz?
Que foi mundo, sol e terra,
amor, pensamento, guerra,
morte, coração vazio,
Sabiá?
Não o saberás.E tu, quem foste, quem eras,
Sabiá,
que não se explica, também?
– Que somos, além dos ossos
e dos terrenos destroços,
e imaginárias quimeras,
Sabiá,
quem somos? quem?
Nadador
O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda.E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento…




