Parabéns aos autores de junho da coleção Melhores Poemas

O poeta português que foi tantos – e tendo sido tantos, absolutamente único – nasceu em Lisboa, dia 13 de junho de 1888. Já o brasileiro Machado de Assis, que além de poeta foi mestre do romance, do conto, da crônica e do teatro, nasceu um pouco antes, em 1839, dia 21 de junho. Além deles, a coleção Melhores Poemas da Global Editora comemora os aniversários de Cláudio Manuel da Costa, Dante Milano, Mario Quintana, Augusto Meyer e Gilberto Mendonça Teles.

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, dia 13 de junho de 1888.

“Para erguer seu insólito e complexo universo poético, Fernando Pessoa parte do fingimento e da íntima associação entre o pensar e o sentir, exprimindo-os em versos logo tornados verdadeiros emblemas” – na apresentação de Teresa Rita Lopes.

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 Momento

Esqueço-me dos anos, e dos meses,
E dos dias, das datas. Mas às vezes
Lembro-me de momentos. Rememoro
Um que me fez chorar. E ainda o choro.
Recordo-me de uma hora, céu cinzento,
A terra sacudida pelo vento,
Um terrível momento escuro e imundo
Em que me vi perdido e só no mundo,
Sob os trovões, e estremecendo às vezes
Entre relâmpagos e lividezes…
Lembranças, não antigas, mas presentes.
Lembranças, não saudades, as ausentes.
Sem novas esperanças que despontem
O dia de hoje me parece de ontem.
Nenhuma data, em mim, nenhuma festa.
Meu amanhã é o pouco que me resta.
Eu sou o que não fui e o que quis ser.
Já fiz o que me resta por fazer,
E bem no fundo de meu ser obscuro
Lembro-me antigamente do futuro…

Dante Milano nasceu no Rio de Janeiro, dia 16 de junho de 1899.

“Dante Milano cultiva uma poética do pensamento emocionado, como o fizeram os chamados ‘poetas metafísicos’ ingleses do século XVII, o que não significa que sua expressão haja renunciado à emoção” – na apresentação de Ivan Junqueira.

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Os semeadores
(Século XVI)

                        … Eis aí saiu o que semeia a semear…
Mat., XIII, 3.

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os ásperos e amargos
Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;
Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia
Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,
E a fé, e as orações
Fizeram transformar a terra pobre em rica
E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
O frio, a descalcez,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,
Como se fora réu
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime
De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Qua dia e que batalha!
Venceste-la; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
Vivereis, vivereis!

Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, dia 21 de junho de 1839.

“[…] a questão do Machado de Assis poeta sempre permaneceu das mais controversas, com o agravante de o autor de Helena ter sido, coisa rara em quase todas as literaturas, um poeta de evolução lenta, um poeta que, inequivocadamente, escreveu na plena maturidade ou mesmo na velhice seus melhores poemas” – na apresentação de Alexei Bueno.

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O poema

Corredor do tempo esquecido
Onde o eco responde ao eco,
Em vez de janelas, reflexo
De espelho e espelho, refletido.

 Que passos repisando passos
Parados vão? A horas mortas,
Fria, uma presença esvoaça
De leves dedos, que abrem portas.

Longo é o caminho. Em qualquer parte
Rei dos Ratos rói os brinquedos.
Dos quatro cantos, lá no quarto
Sombras cochicham os teus segredos.

Onde a janela que se abria
Ao pôr do sol? Andando em frente,
Andando, andando, eu tocaria
No fim da terra, o outro do poente.

Iriavam-se os cristais do lustre,
Na sala escura o espelho que arde!
Pulava a cortina, de susto,
Ao primeiro sopro da tarde.

Mas tudo agora é tão distante!
O rato rói o fio da história.
Só o arrepio de um instante
Sobre à surdina da memória…

Súbito, a hora morta no tempo
amadurece como um fruto!
No misterioso aroma, o poema
Recolhe a essência de um minuto.

Augusto Meyer nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, dia 24 de junho de 1902.

“[…] interessa referir que Augusto Meyer soube conciliar o urbano e o campeiro, a dimensão culta com a popular, encontrando o ponto de equilíbrio entre a expressão do particular e a inclinação ao geral” – na apresentação de Tania Franco Carvalhal.

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À lira desprezo

            I

Que busco, infausta Lira,
Que busco no teu canto,
Se ao mal, que cresce tanto,
Alívio me não dás?
A alma que suspira,
Já foge de escutar-te:
Que tu também és parte
De meu saudoso mal.

            II

Tu foste (eu não o nego),
Tu foste em outra idade
Aquela suavidade
Que Amor soube adorar;
Do meu perdido emprego,
Tu foste o engano amado:
Deixou-me o meu cuidado,
Também te hei de deixar.

            III

Ah! De minha ânsia ardente,
Perdeste o caro império:
Que já noutro hemisfério
Me vejo respirar.
a peito já não sente
Aquele ardor antigo:
Porque outro norte sigo
Que fino Amor me dá.

Cláudio Manuel da Costa nasceu em Minas Gerais, dia 5 de junho de 1729.

Considerado o mais culto, o mais correto na metrificação e na linguagem, dos poetas que viveram em Vila Rica, no século XVIII, Cláudio Manuel da Costa deixou uma obra variada: cantatas, éclogas, epístolas, cançonetas e sonetos, gênero do qual foi emérito cultor, um dos maiores da língua, que continuam encantando o leitor moderno.

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O mapa

Olho o mapa da cidade
como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…

Mario Quintana nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, dia 30 de junho de 1906.

“Muitos dos pequenos poemas em prosa ou verso de Quintana, isolados, pouco significam além de uma distração lúdica, um jogo sutil de percepção das coisas e dos seres. Mas, dentro de sua obra, lado a lado com outras páginas, eles se iluminam repentinamente” – na apresentação de Fausto Cunha.

 Assista ao escritor Marcio Vassallo falando de Mario Quintana:

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Falavra

                J’ai une maladie: je vois le langage.
                Roland Barthes

                       I

Ainda sei da fala e sei da lavra
e sei das pedras nas palavras áspedras.
E sei que o leito da linguagem leixa
pedregulhos na letra.

                                   É como o logro
da poeira na louça ou como o lixo
nos baldios do livro.

Ainda sei da língua e sei da linha
do luxo e suas luvas, amaciando
os calos e os dedais.

                                   E sei da fala
e do ato de lavrá-la na falavra.

                        II

Divido a minha dívida nas letras
dos mais diversos câmbios de expressão.
No espaço um tanto ambíguo do meu giro
se cruzam e se ofertam capitais
dicções, contradições e perdigotos.

Há lucros e aluguéis na agiotagem
das comissões sem câmera e sem nada.
Há moras e demoras no recinto
mais amplo na linguagem.
(Cada gesto
continua medroso, nomeando
os contornos das coisas que se deixam
recortar no prazer de sua essência
e miragem.)

Agora sei do timbre e sei da cãibra,
sei dos ritmos impostos, sei das taxas
e dos juros pesados de infl(r)ações.

Alguém rescinde agora o seu contrato
e vai amortizando a derradeira
epifania do universo.

Gilberto Mendonça Teles nasceu em Bela Vista de Goiás, dia 30 de junho de 1931.

“Há duas grandes áreas específicas de atuação do escritor Gilberto Mendonça Teles no panorama das letras no Brasil: uma, de crítico literário; outra, de poeta” – na apresentação de Luiz Busatto.

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