Universidade Estadual de Goiás indica Melhores Contos Bernardo Élis para o vestibular

Matéria publicada no jornal O popular do dia 7 de julho de 2012.

Por Rogério Borges

Autor goiano cujos contos estão indicados para a prova de literatura da UEG, Bernardo Élis foi um daqueles escritores que não conheceram fronteiras.

Apenas um escritor goiano teve a honra, até hoje, de envergar o fardão da Academia Brasileira de Letras. Seu nome: Bernardo Élis Fleury de Campos Curado. Sua literatura: uma das melhores do Brasil de sua geração. Seu legado: romances, contos e ensaios que valem muito a pena ser lidos.

Os estudantes que vão fazer a prova de literatura do próximo vestibular da Universidade Estadual de Goiás (UEG) terão essa oportunidade. Na lista dos livros indicados consta o título Melhores Contos de Bernardo Élis (Editora Global), uma seleção de narrativas breves organizada pelo também escritor goiano Gilberto Mendonça Teles. O livro permite entender a grandeza de Élis, sobretudo pelo conto A Enxada, um dos melhores de sua produção e que consegue construir uma crítica contundente contra os sistemas de produção que exploram o trabalhador sem, contudo, cair no panfletarismo.

Uma das qualidades mais marcantes do autor, nascido em Corumbá de Goiás em 1915 e que morreu em 1997, é sua capacidade de tornar o regional universal. Não à toa é tido como um dos expoentes de um regionalismo produzido, sobretudo, em Minas Gerais e Goiás, numa estética que se diferencia do regionalismo nordestino dos anos 1930 e que deu ao País grandes autores, alguns deles figurando entre os maiores de nossa literatura.

Trata-se de uma corrente que tem suas raízes mais remotas no primeiro regionalismo de José de Alencar e seu indigenismo, passa por escritores como Bernardo Guimarães – autor de A Escrava Isaura e que chegou a viver em Goiás – e se define com mais clareza a partir de Hugo de Carvalho Ramos e seu clássico Tropas e Boiadas, sem deixar de dialogar com as histórias de seca de Graciliano Ramos e Rachel de Queiróz.

INTENSIDADE
A partir dos anos 1940, porém, tal produção fica mais intensa, com a solidificação de um conceito que lhe dá mais identidade: o de sertão. Ainda que estejam bebendo na fonte de Hugo de Carvalho Ramos, são, sobretudo, Bernardo Élis e Guimarães Rosa os responsáveis por colocar o cerradão, o mais árido e o mais frondoso, no mapa da geografia literária brasileira. A crítica literária e professora da PUC Goiás Albertina Vicentini, em um artigo para a revista Sociedade e Cultura, escreve que há um “conteúdo identitário” nesse movimento, em que a noção de sertão é uma de suas pilastras. O primeiro livro de Bernardo Élis é o volume de contos Ermos e Gerais, de 1944, ainda hoje uma obra basilar. Sagarana, também de contos e que é a primeira grande obra de Guimarães Rosa, é de 1946.

Essa proximidade de datas não é gratuita. Bernardo Élis e Guimarães Rosa tiveram trajetórias bem diferentes, mas alguns pontos em comum. Ambos saíram de seu Estados para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Ambos não se esqueceram de seus rincões natais e traduziram esse imaginário, cada qual ao seu modo. E ambos dialogaram entre si, contribuindo, simultaneamente, para engrandecer suas respectivas produções literárias.

Isso fica patente no ano de 1956, quando os dois autores lançam aqueles que seriam seus livros mais reconhecidos. Élis veio com o romance O Tronco, sobre um conflito real ocorrido no norte de Goiás. Guimarães Rosa apresentou Grande Sertão: Veredas e a antológica saga do jagunço Riobaldo. O autor mineiro ainda lançou Corpo de Baile composto por Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaqua, no Pinhém eNoites do Sertão.

Essa inserção de Élis na produção literária brasileira é relevante na medida em que ajuda a compreender melhor os caminhos de sua rica prosa. Autor de outros livros importantes, como os volumes de contosVeranico de Janeiro, Caminhos dos Gerais e André Louco e o romance Chegou o Governador, ele se transformou em um escritor respeitado por seus pares e admirado pelo público. Além disso, influenciou muitos companheiros de geração, como Carmo Bernardes e José J. Veiga, e tornou-se referência para as gerações de ficcionistas que vieram depois.Num estilo econômico e apurado, com enredos que unem personagens fortes e emblemáticos a uma prosa sem floreios, o autor, no conto e no romance, criou um estilo. Os Melhores Contos de Bernardo Élis trazem o melhor dessa contística, feita em décadas de produção. É, sem dúvida, um grande livro.