Um romance de geração

Libelo contra a ditadura, romance pop e experimento linguístico, Zero foi ignorado por quatro editoras brasileiras, publicado primeiramente na Itália e aqui liberado em 1979 — para nunca mais sair de nosso cânone literário.

Cena 1 – Onde os fracos não têm vez

Se o cineasta Quentin Tarantino já filmasse em 1974 e tivesse algum interesse pela literatura brasileira da época, certamente não escaparia da influência de Zero, o romance experimental, pop e profético de Ignácio de Loyola Brandão. A comparação pode parecer esdrúxula, mas o fato é que Zero é um mosaico de influências que, de certo modo, antecipa a linguagem que Tarantino consagraria no começo dos anos 1990. Ignácio, no entanto, prefere relacionar seu livro a outro filme: Oito e meio, de Federico Fellini, seu longa-metragem preferido, visto por ele mais de 100 vezes.

Para além das experimentações de linguagem, o conteúdo do romance é igualmente instigante e ousado, o que assustou os editores da época, que o recusaram, obrigando Ignácio a lançar Zero primeiramente na Itália, em 1974, onde foi publicado pela editora de Giangiacommo Feltrinelli, o homem que havia descoberto Boris Pasternak nos anos 1950, tornando Doutor Jivago um fenômeno mundial.

manuscritos rascunhos e primeiros esbocos graficos de zero
Manuscritos rascunhos e primeiros esboços gráficos de zero

Escrito no período mais tenebroso de nossa recente história política, entende-se o temor dos editores brasileiros em publicar o livro. Zero narra a história de José e Rosa, um casal pobre que se conhece por meio de uma agência matrimonial. José está apaixonado e, para deixar feliz sua amada, compra uma casa que não pode pagar. José então cai na delinquência, entra na luta armada, é preso e torturado. O mote aparentemente simples vai ganhando contornos épicos ao longo da narrativa. No meio do texto, com jeitão de roteiro de cinema, Ignácio vai enxertando todo tipo de referência: desenhos, onomatopeias, recortes de jornais, citações de livros, equações matemáticas, etc. Um caos literário que tinha grande chance de se transformar em uma tentativa vã de arejar o gênero romance, mas que no final não só se mostrou uma experiência bem-sucedida esteticamente como também emblemática do período conturbado que o país vivia.


Cena 2 – Era uma vez na América

“Instintivamente, sem saber por quê, comecei a coletar o material assim que ao jornal Última Hora reabriu, em abril de 1964, e o censor se instalou dentro da redação. Tudo o que ele proibia, sem explicar, sem dar satisfações, eu deixava dentro de uma gaveta. Fotos, entrevistas, notícias nacionais e internacionais, charges, caricaturas, reportagens, comentários de analistas políticos e econômicos eram jogados dentro daquelas amplas gavetas. Um dia, talvez um ano depois, gavetas abarrotadas, levei tudo aquilo para meu apartamento, no número 168 da Praça Roosevelt. Então fiquei lendo, tentando relembrar cada coisa”, explica Ignácio, que trabalhou no jornal de Samuel Wainer no período mais repressivo da ditadura militar.

Às voltas com uma infinidade de material, o escritor foi encorajado por amigos como Ítala Nandi e José Celso Martinez Corrêa a transformar em romance o conteúdo que vinha garimpando há anos. “Monta assim mesmo, desordenado, louco, fragmentado, o Brasil está assim. Não arrume nada, o país vive desorganizado”, aconselhou o criador do Teatro Oficina.

Mas a epopeia de José, que trabalhava como caçador de ratos em um cinema, começaria a ser traçada de verdade no início dos anos 1970, quando Plínio Marcos convidou Ignácio para participar de uma coletânea, da Editora Senzala, em que diversos autores escreveriam ficções passadas na cidade de São Paulo. Ignácio teve então a ideia de escrever uma história baseada em uma notícia de jornal: na Vila Brasilândia, Freguesia do Ó, havia um menino que tinha música na barriga. A editora abandonou o projeto e Ignácio não escreveu o conto. Mas o estruturou e montou um roteiro para o que seria a história. Junto com as centenas de papéis, anotações e recortes que acumulara durante anos, o roteiro do conto formava um elemento importante para o romance que Zé Celso havia incentivado Ignácio a escrever. “Pensei: por que não utilizá-lo [o conto] no romance que ainda não tinha plano, título, nada? Foi ali que comecei o Zero”, relembra o escritor. Entre 1964, quando Ignácio começa a coletar material, até 1973, quando termina o livro, passaram-se nove anos. Nesse meio tempo, em 1968, o autor publica seu primeiro romance, Bebel que a cidade comeu. “Foi o aquecimento. Eu não sabia escrever romances.”

Desenho que reproduz o restaurante giratório frequentado pelo personagem José
Desenho que reproduz o restaurante giratório frequentado pelo personagem José

Cena 3 – Tempo de violência 

Durante os anos de périplo do romance, entre a escrita e a publicação, Zero manteve o título provisório de A inauguração da morte. Até que uma caminhada pelo centro de São Paulo deu ao autor o nome definitivo para seu livro. Ele ficou impressionado com o imenso zero em vermelho estampado em um outdoor. A partir dali, a imagem o perseguiu. “Éramos zero na ditadura. A vida significava zero. Zero era uma prisão. Zero = inicio da vida. Zero = fim da vida.” Além do insight proporcionado pela publicidade e pela notícia de jornal que deu origem à história do menino que tinha música na barriga, Zero foi composto por uma série de episódios comezinhos que a sensibilidade de Ignácio transformaria em elementos importantes do romance. O restaurante cujo balcão girava, foi inspirado em um bar do centro de São Paulo chamado “O Giratório”. A agência de matrimônio que uniu José e Rosa surgiu de uma matéria que Ignácio fez sobre a primeira agência internacional matrimonial, chamada Paimi. O escritor se lembra que deu o endereço da agência a Manoel, à época porteiro do jornal Última Hora, que conseguiu casamento. Para aumentar a renda, Manoel era lanterninha no Cine Santa Helena, na Praça da Sé, um cinema infestado de ratos. Daí surgiu a profissão de José e a primeira frase do romance: “José mata ratos num cinema poeira”.

Durante os quase dez anos de gestação do romance, Ignácio escreveu mais de duas mil páginas, que pouco a pouco foram sendo limadas. No último corte, foram retiradas mais de 400 laudas. Grande parte desse conteúdo foi emprestado a amigos e professores que pretendiam escrever sobre o livro e nunca mais devolveram o material. Após a primeira edição brasileira, publicada pela Editora Brasília, o livro foi proibido e só voltaria às prateleiras brasileiras em 1979, após grande pressão da intelectualidade nacional, que organizou um manifesto a favor de Zero com mais de 1.200 assinaturas. Entre alguns nomes que assinaram o documento, estavam Otto Maria Carpeaux, Antônio Houaiss, Moacyr Scliar, Chico Buarque, Paulo Emílio Salles Gomes e Rubem Fonseca.

Cena 4 – Agonia e glória

A proibição do livro mobilizou escritores jornalistas e artistas que lutaram contra a censura do romance de Ignácio
A proibição do livro mobilizou escritores jornalistas e artistas que lutaram contra a censura do romance de Ignácio

Enquanto esteve proibido, o romance, no entanto, circulava por outras paragens. Entre 1975 e 1979, ano em que foi liberado pela censura, Zero ganhou edições em Portugal, Espanha e Alemanha. Ao longo de mais de três décadas, o livro continuou fazendo grande carreira no exterior, com traduções em países como Coreia do Norte, Hungria e República Tcheca. Dada a complexidade do romance, carregado de gírias e regionalismos, Ignácio, a pedido de Curt Meyer-Clason, o tradutor alemão de Zero, fez um dicionário para tradutores, o que facilitou o trabalho de novas versões do livro. “Fiz dezenas de questionamentos a você. Por que não organiza essas perguntas e respostas em um volume? Assim terá um dicionário para os tradutores. Cada vez que o Zero for vendido, você entra em contato com o tradutor e envia o ‘dicionário’”, sugeriu Meyer-Clason. Assim Ignácio passou a distribuir um dicionário de mais ou menos 100 páginas para os novos tradutores de Zero.                                                  

Em 2010, a editora Global organizou uma edição especial em comemoração aos 35 anos de Zero, que reúne, além do dicionário para tradutores, textos que reconstroem o caminho do livro por meio de matérias de jornal, capas e documentos da época em que o romance foi lançado.

Como costuma acontecer com os clássicos, Zero ganhou ainda mais importância com o passar das décadas e é considerado hoje um dos livros mais emblemáticos da literatura brasileira. O tremor de terra provocado pelo livro foi tamanho, que o romance passou a assombrar seu autor, que se via preso à própria obra-prima que produziu. “Certa época de minha vida, cheguei a odiar Zero, a me preocupar. Falavam de Ignácio Loyola, falavam de Zero. Era um peso, uma prisão. Pensei em parar de escrever. Depois dele veio um romance importante para mim, Dentes ao sol, mas que não teve nenhuma crítica, nenhuma repercussão. Hoje tem. Até que chegou Não verás país nenhum, que provocou tamanho impacto e me ‘liberou’ do Zero.

*Matéria publicada no jornal Cândido da Biblioteca Pública do Paraná.