Maíra – Isaías que não era Índio; Avá que não era Branco

Não sou soldado que regressa vitorioso ou derrotado. Não sou exilado que retorna com saudades da raiz. Sou o outro em busca do um. Sou o que resulto ser, ainda, nesta luta por refazer os caminhos que me desfizeram.” O trecho destacado de Maíra, obra do antropólogo Darcy Ribeiro recém-lançada pela Global Editora (20ª edição), elucida o conflito de seres que se separam das suas raízes culturais e buscam recuperar suas identidades. Um romance antropológico que discorre, de forma literária, sobre o processo de integração entre duas culturas distintas, que resulta na perda da especificidade e, consequentemente, aniquila a unidade identitária de um determinado povo.

Maíra foi o primeiro romance de Darcy Ribeiro e trouxe para o universo ficcional sua experiência como antropólogo. “Foi com a junção entre literatura e antropologia que Darcy Ribeiro conseguiu dar valor estético a algumas das ideias centrais de seu pensamento científico, por isso o próprio autor nutria um carinho especial por essa obra”, diz Paulo Ribeiro, presidente da Fundação Darcy Ribeiro. Na obra, o antropólogo busca a compreensão da integração entre o universo do branco e do índio. Mais do que um trabalho antropológico, em alguns momentos Darcy Ribeiro se une ao angustiado índio Mairum. Segundo ele, escreveu a obra com o olhar do índio, como se fosse um índio. A história, também carregada por relatos detalhados da natureza, corrobora com a visão de uma civilização que não herdou a impetuosidade e o egoísmo do europeu cristão. “Para mim esses Mairuns já fizeram a revolução em liberdade. Não há ricos, nem pobres: quando a natureza está sovina todos emagrecem, quando a natureza está dadivosa todos engordam. Ninguém explora ninguém. Ninguém manda em ninguém. Não tem preço esta liberdade de trabalhar e de folgar ao gosto de cada um. Depois, a vida é variada, ninguém é burro, nem metido à besta. Para mim a Terra sem Males está aqui mesmo, agora. Nem brigar eles brigam. Só homem e mulher na fúria momentânea das ciumeiras. Deixa essa gente em paz, Isaías. Não complique as coisas rapaz.”

O romance é baseado na história do índio bororó Tiago Kegum Apoboreu, que os salesianos quiseram reeducar. Na obra literária de Darcy, Tiago vira Avá, um índio Mairum destinado a ser tuxuarã, chefe de guerra de sua tribo. Preparado desde criança, assumiria, quando adulto, o lugar de seu tio Anacã. Porém, devido a uma doença, teve de deixar a aldeia e foi levado a Roma pelo padre Vecchio para, no futuro, tornar-se padre e missionário, ganhando o nome bíblico de Isaías. Avá, agora Isaías, entra em contato com a cultura europeia, especialmente a sacra. Entretanto, não vê a possibilidade de uma interação em que as especificidades das culturas europeia e indígena possam ser mantidas e complementar uma a outra. No caso, vítima da integração e visto pelo catolicismo como membro de um povo culturalmente inferior, vê-se obrigado a se adaptar à cultura do homem branco. “Não, não sou ninguém. Melhor que seja padre, assim poderei viver quieto e talvez até ajudar o próximo. Isto é, se o próximo deixar que um índio de merda o abençoe, o confesse, o perdoe.” Entretanto, na impossibilidade de completar a missão, retorna à tribo em busca da sua identidade. Porém, seu retorno, acompanhado da carioca Alma, não lhe devolve o que procura, pois o seu contato e convívio com a cultura do branco limita o seu reconhecimento como índio e não permite a sua reintegração ao seu povo.

Não era mais reconhecido como um Mairum, nem pelos outros índios e nem por ele mesmo. A mesma dificuldade que encontrou para integrar-se ao povo europeu acontecia agora com a sua própria tribo, gerando a impossibilidade de uma unidade identitária. Isaías, que não era mais índio nem Avá, e que também não era branco, transitava, agora, entre duas culturas distintas.

Em um final contraditório, Avá/Isaías começa a traduzir a bíblia cristã para a língua dos Mairuns. Darcy Ribeiro compartilha conosco a riqueza de uma cultura oprimida, que fora diminuída e quase dizimada em detrimento da hegemonia cultural da nossa sociedade.

Darcy Ribeiro escreveu Maíra quando estava exilado no Peru, na década de 1960. Nesse período ele reviveu, em suas lembranças, a sua convivência com os povos indígenas, sobretudo o período em que realizou estudos etnológicos de campo, entre 1947 e 1956. Para ele, que escreveu a obra em tempos de ditadura no Brasil, tentando a integração do índio à sociedade, o processo de criação da obra, por meio de suas memórias, fez com que ele não sofresse o exílio.  “Vivi milhares de minhas horas livres em pura liberdade, porque não estava no exílio enquanto escrevia, mas na Amazônia, com meus índios”.

Foto: Arquivo Fundação Darcy Ribeiro