Crônica “As fêmeas que preferem dizer não”, de Marina Colasanti

As fêmeas que preferem dizer não

Se o espaço e o tempo, no dizer dos sábios,
são coisas que não podem ser,
a mosca que viveu por um só dia
tanto viveu quanto vivemos nós.
T. S. Eliot, Canção

As drosófilas caíram na minha sopa em plena juventude, quando terminava aquilo que então se chamava o clássico. Lembro como me pareceu exótico que Mendel descobrisse suas famosas leis de hereditariedade, e com elas os mecanismos genéticos que levam alguém a nascer de olhos azuis, estudando moscas de olhos invariavelmente escuros. Também estudou ervilhas, mas essas, por absoluta falta de charme, estavam destinadas a um papel de coadjuvantes.

As drosófilas não. Da nobre linhagem melanogaster, nasceram para as manchetes. E sobretudo as manchetes picantes. Ainda na semana passada um sério estudo científico pormenorizou seu ritual amoroso. Mas lembro quando, no início da década de 1990, um biólogo de nome Kaneshiro tornou pública a vida sexual das mosquinhas. Era muito semelhante à dos humanos. Havia fêmeas extremamente dedicadas ao fazer amoroso, e machos tão sedutores que batiam recordes de arregimentação para o sexo. Porém, o que mais me chamou a atenção foi o rigor seletivo da maioria das fêmeas. E o fato de que, sendo delas a escolha e apesar dos ademanes dos machos, 30% se mantinham puras como vestais durante toda a vida.

O que as levava a resistir? Sabemos, pelas pesquisas noticiadas na semana passada, que o ritual sexual das drosófilas é rigoroso. O macho se acerca da fêmea, esfrega sua patinha na dela, toca uma música com as asas, em seguida lambe o sexo dela e por último, tendo completado todo o percurso de sedução, faz amor com ela durante exatos vinte minutos.

Para que a fêmea faça a escolha, imagino seja necessária a realização de pelo menos uma parte do ritual. Como entre os humanos. Mas que parte? Uma esfregadinha de pata provavelmente não compromete, deve ser equivalente a um convite para um drinque, gesto inicial que esboça a tentativa. E da musiquinha tenho certeza de que ela não abre mão. Afinal, mesmo Proust, que lhe desconhecia a causa, encantava‑se com o som produzido pelas pequenas asas, “… até as moscas” – escreveu – “que estavam executando em minha presença, e em seu reduzido concerto, uma música, que era como a música de câmara do verão”. A música talvez seja o ponto crucial nessa escolha. Se o macho desafina, como o homem que erra o passo na conversa, será defenestrado. E nesse item se coloca o ponto-final, pois é evidente que se ela se deixasse lamber, ficaria quase impossível dizer não.

Trinta por cento das fêmeas votarão “não”, no plebiscito amoroso, e não terão companheiro. Voarão sozinhas ou em grupos de fêmeas, sobre as frutas maduras caídas ao chão. Mas parece pouco provável que na sociedade das drosófilas isso seja considerado um estigma. Elas ficarão sozinhas não por falta de machos, mas por falta de machos do seu agrado. E ninguém as acusará de terem demasiada expectativa.

Toda fêmea que fica sozinha, de qualquer espécie, disse não em algum momento. E se não o disse em voz alta, conscientemente, o disse em silêncio, e só os machos ouviram. Dizer “não” é uma opção oferecida pela natureza, e sendo tão frequente podemos deduzir que tem uma função. Conhecer essa função, e sua importância, talvez ajudasse as fêmeas de outra espécie, aquelas que pousam sozinhas nos teatros e nos bares.

Melhores Crônicas Marina Colasanti, págs. 143-144