Cecília e a poesia que nos completa

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta

Estrofe do poema “Motivo”, do livro Viagem.

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Estrofe do poema “Canção excêntrica”, do livro Vaga música.

Não acuso nem perdoo.
Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?

Eu não estava presente, quando formaram
a voz tão frágil dos pássaros.

Quando as nuvens começaram a existir,
qual de nós estava presente?

Estrofes finais do poema “Contemplação”, do livro Mar absoluto.

E aos meus lisos pensamentos
nunca se compararão
nem luzes nem ventos.
Que as imagens e os momentos
rugas sempre são.

Estrofe do poema “Doce cantar”, do livro Mar absoluto.

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Estrofe do poema “Ou isto ou aquilo”, do clássico infantil Ou isto ou aquilo.

Podia morrer de pena.
E comecei a cantar-te.
Amor é arte.
Mas a vida é tão pequena,
bela sobre toda flor!
– tão pequena para amar-te…
E em toda parte
causa espanto o meu amor.

Estrofe do livro Amor em Leonoreta.

Porque o dia vem.
E a nossa voz é um som que se prolonga,
através da noite.
Um som que só tem sentido na noite.
Um som que aprende, na noite,
a ser o absoluto silêncio.

Estrofe do poema “Onze”, do livro Doze noturnos da Holanda.

Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada…
(A terra toda mexida,
a água toda revirada…

Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)

Estrofes finais de “Romance VII ou Do negro nas catas”, do livro Romanceiro da Inconfidência.

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!

Estrofe do poema “Nadador”, do livro Canções.

Falar contigo. Andar lentamente falando
com as palavras do sono (as da infância, as da morte).
Dizer com claridade o que existe em segredo.

Estrofe do quinto poema do livro Solombra.

 “Entre Viagem e Solombra, Cecília Meireles parece ter feito a aposta de não deixar passar um dia sem a visitação da poesia. Deixou-nos uma obra tão volumosa que nos inclina a acreditar no que então se dizia: que ela passava dias inteiros reclusa no escritório de sua casa no Cosme Velho, à espera dos poemas.”

Texto de apresentação de Alberto da Costa e Silva

***

Compre aqui: