Resenha do livro Ensaios literários, de Manuel Bandeira

ensaiosRecomendação número um para o leitor de Ensaios literários, de Manuel Bandeira (Global Editora, 2016): não leia a obra na cama, à noite. Você não conseguirá dormir. Porque a todo momento os textos tendem a demandar alguma pesquisa. Diferentemente dos fluidos poemas de Bandeira, de palavras e situações mais do dia a dia, nesses ensaios, discursos e trechos de publicações na imprensa sobre literatura, Bandeira revela a grandiosidade de quem chamava a si próprio ‘poeta menor’ (e, nesse caso específico, a gente não precisa acreditar nele).

O leitor pode ser culto como o próprio Bandeira. Então não terá tanto o que pesquisar. Mas o normal é que, a partir das análises do poeta, o leitor vá buscar mais informações sobre os autores citados como exemplos e comparações, as formas de poesia praticadas em diferentes tempos da humanidade, em diferentes países. E nesse processo fica claro que a busca pela forma simples dos principais poemas de Manuel Bandeira esteve sempre carregada de conhecimento teórico, métricas e métricas de leituras e escrita, antes de alcançar com maestria o verso livre.

Ensaios literários é livro tanto de fruição quanto de estudo e consulta. Mais: têm livros dentro do livro. Por exemplo, a Apresentação da poesia brasileira, com 135 páginas, em que Bandeira condensa e dá contexto à história da produção poética no Brasil, até a metade do século 20. É um texto que serve muito bem, por exemplo, a estudantes, para amarração e melhor entendimento da poesia no Brasil, ou até mesmo para introduzir o assunto a ser explorado parte a parte depois. Como bônus, ao fim dessa apresentação em que Bandeira fala muito de poetas contemporâneos seus, como Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, mas modestamente se exclui, há a apresentação do autor omitido, escrita por Otto Maria Carpeaux, brilhante crítico literário: “…o autor não permitiu ao seu nome entrar neste livro que trata da evolução da poesia brasileira, opondo-se à opinião literária no Brasil, que situa o nome de Manuel Bandeira num momento decisivo da evolução daquela poesia“.

Discurso a formandos

Não desprezemos a tradição europeia em que nos formamos. Convenhamos no entanto que é nos pensadores americanos que podemos encontrar resposta aos nossos problemas sociais e políticos, nos poetas americanos a emoção específica da nossa paisagem e da nossa alma, nos romancistas americanos a expressão profunda de nossa vida“, discursou Manuel Bandeira, em 1945, a uma turma que se formava na então Universidade do Brasil, hoje a Universidade Federal do Rio de Janeiro, chamando a atenção para a riqueza da produção literária da América Latina (americanos, no caso, não são os oriundos dos Estados Unidos, mas os povos de todo o continente). Era o exato pós-II Grande Guerra, época de dores profundas e também de esperanças no mundo todo. Considerando-o como um homem tuberculoso desde a juventude e que passou a vida achando que ia logo morrer (e morreu aos 82 anos), a mensagem desse texto é bastante inspiradora e otimista.

“Ides começar lá fora desta casa uma tarefa onde não faltarão os embaraços, os dissabores, as decepções. Não vos desejo senão o contrário de tudo isso. Mas, nas horas difíceis e incertas, não vos deixeis abater pelo desânimo, nem transviar no pessimismo: afirmai antes, com mais entusiasmo, em vossa juventude interior preservada, que a verdade e a ternura não são coisas inúteis, e continuai lutando com verdade e ternura.”

O livro ainda conta com apresentação iluminadora, composta em conjunto pelos professores doutores Antonio Hohlfeldt e Ana Claudia Munari, do Rio Grande do Sul, em que demonstram sobretudo a cultura acumulada por Manuel Bandeira e a seriedade com que ele estabelecia critérios para suas antologias e análises.

Enfim, use Ensaios literários como quiser – a certeza é de que a obra é para ser usada com frequência. Não se esgota numa primeira leitura. E nisso ela se aproxima a todos os poemas de Manuel Bandeira.