Resenha de Melhores crônicas, de Marina Colasanti

por Marco Severo (*)

Abrir um livro de Marina Colasanti é como banhar-se nas águas de um rio tão profundamente arraigado ao tempo que dele se pode dizer: é atemporal. E é mesmo. Essa é a medida do universo em que se adentra com a obra Melhores crônicas – Marina Colasanti, livro que a Global Editora lançou em 2016 com uma seleção de textos que vão desde 1970 até 2012, um passeio por mais de quarenta anos de uma produção literária vigorosa. E profundamente necessária.

MCr_Marina Colasanti_capa.inddSim. Pois que ao lermos as crônicas deste livro, percorremos, livres, afluentes que já conhecemos. A mulher, o (nem sempre sagrado) feminino, o feminismo, as asperezas, mas também as suavidades de ser mãe, de ser plural, num mundo ainda absurdamente machista. Porém, esses são temas amplamente associados a Marina. A obra, talvez preocupada em mostrar outras facetas da autora, nos mostra uma mulher a um só tempo dona do seu tempo – e muito além dele. São nesses outros textos que as crônicas ganham tons que merecem ser descobertos por aqueles que ainda não o fizeram. Marina toca em temas inerentes à existência humana, ao tempo e à solidão, ao fato de sermos destituídos daquilo que somos, apenas para nos descobrirmos, adiante, refeitos. É aqui que se faz o encontro com a poesia do indizível, traduzido em sentimento através de palavras, como na crônica O amor eterno passeia de ônibus, em que narra a história de dois velhinhos que são aparentemente delicados gestos de amor, até que um segredo é revelado ao leitor, e só ao leitor em fina cumplicidade – para aqueles que viram os velhinhos, a fé no amor persistirá.

É dessa junção do belo com o que nos assombra que é feita a prosa de Marina Colasanti. A ternura está, para ela, em eterna tessitura com nossos próprios solavancos, como a constatar que em qualquer vida pungente, não poderia ser diferente. O que difere para cada um de nós, nos parece dizer Marina, é o olhar por sobre os dias, as relações, as construções dos afetos, que vão e vêm a despeito das horas que nos atravessam.

Em Melhores crônicas – Marina Colasanti, que nos presenteia com os melhores textos de cada um de seus livros de crônicas ao longo de quatro décadas, recebemos um recado da vida, dos dias, através da prosa translúcida da autora: homens e mulheres, somos um feixe de possibilidades. Sejamos, então, cada uma delas, através do exercício diário da sensibilidade.

* Marco Severo é de Fortaleza, Ceará. Professor de inglês, tradutor, gosta mesmo é de escrever em português claro e de ler em todas as formas da língua. Autor dos livros Os escritores que eu matei (Editora Substância, 2015) e Todo naufrágio é também um lugar de chegada (Editora Moinhos, 2016).