Poema “Família vende tudo”, de Sérgio Vaz

Um dos fundadores da Cooperifa – Sarau Literário na periferia de São Paulo, Sérgio Vaz sabe, como ninguém, transmitir a alma das ruas. Em Flores de alvenaria, Sérgio nos lança nas calçadas do subúrbio e descortina um universo muitas vezes invisível por meio de textos, ora em verso, ora em prosa, sobre os mais variados temas: educação, negritude, liberdade, sexo, empatia.

Conheça o poema Família vende tudo, um dos textos de Sérgio Vaz que compõem Flores de alvenaria (págs. 120-123).

Família vende tudo

Vende-se barraco de madeira
com vista para o córrego
com água e esgoto desencanados
dois por quatro, sem tramela
com buraco para o frio entrar.

Devido à pressão
vendo jogo de vazias panelas
frigideira sem óleo
vida sem tempero
ronco de barriga
insônia da miséria.

Vende-se choro de mãe
com criança no colo
na fila do hospital
dessa vida sem bula
sem cura
sem melhoral.

Vende-se abandono de pai:
“Ave‑Maria, pai nosso que estais no céu,
como batia, esse filho da mãe!”

Vende-se Natal sem brinquedo
sem bola nem boneca
uma foto amarelada
do tio Noel
puxando trenó sem cavalo
nas ruas da cidade.

Vende-se vaga em escola ruim
de criança que cresce sem creche,
sem merenda, sem leque,
raiz dos problemas
de todos meus pobrema
do destino em xeque.

Vende-se sapato furado,
chinelo de dedo e calos nos pés.
Vendo fé cega,
lágrimas enferrujadas,
calos nas mãos
de orações não atendidas.

Vende-se anjo da guarda
surdo‑mudo
sem experiência
contra a pobreza.

Vende-se
um corpo falido
cheio de rugas
que se abriram como estradas
nessa sina sem rumo, sem saída,
de vida inteira, quebrada.

Vende-se rim,
fígado, coração
e sonhos dormidos.

Vende-se alegria de Ano‑Novo
primeiro amor, nunca usado.

Vende-se desemprego, unha desfeita,
dores nas costas, no peito e de amores.

Vende-se a porra toda.

Vende-se menina grávida,
guarda‑roupa sem roupa.
Vendo menino
no semáforo
equilibrando o limão
da vida amarga.

Vende-se bala perdida
que encontra sempre a molecada
nas esquinas escuras
desse destino claro.

Vende-se samba de Adoniran
onde a favela fica bonita,
com saudosa maloca e tudo,
já tem luz elétrica esse lugar escuro
onde o político se ilumina.

Vende-se futuro
que não vale nada,
por isso leva
o passado de presente.

Vende-se racismo,
essa escola de preto no branco
que desfila na avenida Brasil
o ano inteiro depois do carnaval.

Tinha até sorriso e felicidade pra vender
mas, como ninguém nunca usou,
se perdeu nos becos da favela.

Vende-se alegria,
mas tem que levar a tristeza também.

Família vende tudo,
antes que o incêndio
acabe com ela.