Pedreira

por Adriane Garcia*

É do lado do Departamento de Investigações da Polícia Civil, em frente ao posto policial militar. Os prédios populares, de apartamentos de dois quartos, se erguem, feitos há muito tempo, por Oscar Niemeyer, mas antes das curvas. Uma raridade. Atrás, a grande favela da Pedreira. Tem esse nome porque foi de lá que tiraram pedra, quase mármore, granito, quando iniciaram os grandes prédios da Capital. Cumprido seu destino de ter fornecido riqueza, a Pedreira passou a ser apenas o reduto daqueles que jamais teriam uma casa parecida com as que construíram. Entrou em decadência com o bairro, da boemia famosa para o retrato da indigência. Tempos depois, alargaram a avenida e muita casa, galpão, comércio que tampava o sol com a peneira veio abaixo. Foi o fim da fachada e é por isso que é possível ver Ângela, menina, desescondida, andando entre as pichações partidas dos destroços de construção.

Vê-se primeiro as pernas negras e miúdas de saracura? Ou a barriguinha avantajada que, não arredondando, pontiaguda, espetada para frente, faria as avós antigas profetizarem que é um menino? Mas vê-se, então, caso se olhe. E é bem possível que, para olhos desatentos, Ângela esteja perdida entre outras dezenas de perambulantes invisíveis, que sobem e descem o acidentado do terreno que restou e que, se agora é solo inerte, dos passos dos desgraçados, tem futuro. Espera-se o fim dos miseráveis, a especulação imobiliária.

Nasceu ali mesmo, no Hospital Odilon Behrens. A mãe vivia contando que sofreu demais no parto, que a médica, que escolheu ser obstetra, mas não suportava ouvir gemidos, xingava quando ela gritava de dor, mandava parar com o escândalo e, de pirraça, deixou-a sozinha no soro para adiantar as contrações. Ângela se enrolou no cordão, quase morta. O pai nem apareceu, era viciado em cocaína e vivia devendo. Estava fugido e só voltou quando Ângela já tinha três meses. Apareceu assassinado de vingança, com dois tiros na testa, caído, na soleira da porta. A mãe, carne nova ainda, começou a fazer “ponto”, à noite, na rua Guaicurus. De manhã, trazia para casa dinheiro e sono.

Até os cinco anos, a menina dormiu com uma vizinha que fazia marmita para entrega. Ajudou, desde quando pode, a picar legumes, que ficavam adiantados para o outro dia. Depois, já ficava sozinha, não sem medo de histórias que ouvia. Mas gostava de comida fria e não tinha perigo não, se a vizinhança toda tinha ordem de não fazer mal a si própria, dentro da favela. A desobediência punida com a morte. Ângela se distraía com a televisão velha, Philips, T 520, 12 polegadas – ainda à válvula –, que a mãe negociara no topa-tudo.

Passava as três novelas, dois telejornais, no entremeio, adormecia no sofá-cama. À noite a TV era só um barulhinho, para ter companhia; pela manhã é que, após a mãe chegar e ir direto para a cama, ela aumentava o volume e via desenho animado. Aos sete, passou a ir para a escola. Desligava e saía. Voltava e, hábito, ligava. Deixava bem alto quando ia lá fora, lavar a roupa dela e da mãe. Não aprendia a ler de jeito nenhum, mas gostava da merenda. Era difícil ter que decifrar código, e foi só piorando, até que, na quarta série, repetindo pela segunda vez, desistiu. A mãe notou, não notou, mas já estava, para a profissão, infeliz e feia. Deitava-se, sem forças, achando melhor não ver aquilo para o qual nada poderia ser feito.

Aos treze, Ângela passou a receber Antônio em casa, mais velho que ela treze anos. Passavam a noite transando e fumando. Não demorou para ela ir, de vez, para o barraco dele. A mãe gritou que era melhor mesmo, que cansou de sustentar vagabunda. Ângela levou a roupa e a TV. Dois dias depois, a mãe apareceu na porta e levou a TV de volta. Antônio não precisava mesmo ficar com dois televisores.

Foi com ele que Ângela aprendeu a fumar da “rocha”, como chamavam. A inconsciência de que se distraía da própria vida. Ele a ensinou a fazer o cachimbo de latinha de alumínio, a furar com estilete. No começo, ela ouvia o barulho da pedra queimando: crack! Os olhos arregalavam-se de imediato, sua cabeça sentia o estalo. Ângela alucinava como se tivesse dentro de si um telão. Via banquetes de comerciais, baús providos de ouro, uma mulher branca, loura, muito rica e bem-vestida, rindo histericamente, entregando a ela um poá de plumas lilases. A cena, no mistério de se repetir inúmeras vezes para caber em alguns segundos, como alguém que, pulando de um prédio, assiste, antes do crânio estatelado, a sua vida inteira. Depois, se deprimia, desesperava-se à procura de algum botão fácil que pudesse apertar para não existir de novo.

Pararam de dormir. O sono desapareceu e em seu lugar deixou uma espécie gradual de loucura. Venderam a cama, o fogão, o vaso sanitário, o barraco, a TV. Passaram a cometer pequenos furtos nas imediações, exigir dinheiro de quem, sempre apavorado com a paisagem deplorável, esperava o ônibus, na avenida. Antônio sumiu.

Ângela, a gente ainda vê.

* Adriane Garcia é historiadora, arte-educadora, atriz e, sobretudo, escritora, em conto, crônica, teatro e poesia. Autora dos livros O nome do mundo e Só, com peixes, entre outras obras.