Manuel Bandeira, 133 anos: a herança de bichos que não são bichos

Você nasce num mundo em que as pessoas não têm telefone em casa, morre apenas um ano antes de o homem chegar à lua de foguete. Anda por ruas sem carros quando criança, morre ao som de engarrafamentos. Tem o céu da juventude habitado por pássaros e, depois de algumas décadas, viaja acima deles, de avião. Manuel Bandeira atravessou esses mundos com antenas perspicazes, não deslumbradas. Muito humanas antenas. Nasceu em Recife em 1886, morreu no Rio em 1968.

Em vez de ser atropelado pelas mudanças radicais entre os séculos 19 e 20, com suas massacrantes grandes guerras mundiais, suas novidades frequentes tanto em tecnologia quanto em pensamento, suas guinadas artísticas e políticas, Bandeira conseguiu nesse barulho todo sintetizar em poemas a essência da vida comum. Ele que, tuberculoso desde jovem, achava que ia morrer a qualquer instante, escreveu sobre a morte, mas muito mais sobre a vida.

Nesse contexto, e muito mais detalhadamente, o também poeta Ivan Junqueira organizou um dos livros essenciais da obra de Manuel Bandeira: Testamento de Pasárgada (Global Editora, 2014). É uma antologia dividida por temas, não por datas. E assim, Junqueira pôde apresentar – porque há ensaios antes de cada parte – as questões fundamentais da obra inteira, em sua variedade de formas e abordagens.

Manuel Bandeira e seu busto, feito pelo poeta Dante Milano, na década de 1950.

O poema abaixo é um dos exemplos da capacidade de Bandeira redimensionar acontecimentos do cotidiano. “O cacto”, publicado primeiro no livro Libertinagem, humaniza de certa forma a planta espinhenta. É narrativo – nesse sentido, quase um miniconto –, mas é carregado de metáforas e, em si, muito metafórico.

As estátuas que cita, por exemplo, de Laocoonte e Ugolino (o Google nos ajuda), são peças artísticas que representam momentos de extremo sofrimento humano. Ler sobre elas ilumina a poesia, torna o cacto-personagem mais que planta, um monumento; e, depois, mais que monumento, quase gente.

Estão no texto elementos desse tempo maluco que o poeta atravessou: de um lado o atraso nas regiões secas do país, do outro a cidade exuberante em confortos, que o cacto interrompe por um dia inteiro em sua queda.

O cacto

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou
[a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.

Petrópolis, 1925
Libertinagem

Em “O bicho”, escrito duas décadas depois, os mundos avançado e atrasado encontram-se novamente. Aqui, em vez de metáfora, há um susto construído em forma e ritmo. No terceiro verso, percebemos na leitura em voz alta, as palavras soando com som de arrasto, de mastigação, de trituração. Os elementos sonoros fazem parte da comunicação poética.

Em Testamento de Pasárgada, Ivan Junqueira citou observação do crítico Emanuel de Moraes: “O sofrimento que transmite em seu poema não é o do homem, mas o do poeta, ele mesmo. E apenas o revela. Não consigna o seu protesto. Não investe contra a miséria, nem contra as classes dominantes. O poeta sofre por ver tão rebaixada a condição do homem”.

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Rio, 27 de dezembro de 1947
       Belo belo

Faz 133 anos que Manuel Bandeira nasceu. E nessa segunda década do século 21 ele continua inaugurando olhares para o mundo, pela principal herança que deixou a todos, sua poesia.


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