Gilberto Freyre, como num papo de alpendre

Esqueça por um instante a grandeza de Gilberto Freyre, um dos mais influentes pensadores brasileiros de todos os tempos. É bem difícil esquecer isso… mas o importante é que mesmo os grandes nomes da literatura brasileira não falam profundamente o tempo todo (ainda que até nas pequenas coisas e sem pompa nenhuma esses gênios alcancem profundidades). O caso é que o livro Perfil de Euclides e outros perfis (Global Editora) a gente lê como se estivesse sentado num alpendre, no fim de tarde mais gostoso que puder imaginar, ouvindo grandes histórias como se fossem meras curiosidades.

Por exemplo no perfil do poeta Manuel Bandeira. Os dois foram muito amigos, ambos nasceram no Recife, e a correspondência entre eles até rendeu o importante livro Cartas provincianas (Global Editora), a partir de um detalhado estudo da pesquisadora Silvana Morelli Dias.

Nessa habilidosa prosa de Freyre encontramos a história de um dos mais importantes poemas da obra de Bandeira. E, quando conta a história desse poema, Freyre revela muito sobre o próprio poeta e sobre si mesmo. A seguir, um trecho:

O admirador tem sempre alguma coisa de gato – aquela manha já célebre do gato, que parece estar somente agradando, afagando e fazendo festa à pessoa amada, quando na verdade está é se aproveitando dela para alisar o próprio pelo. Não me julgo exceção à regra geral. Conjugo o verbo “admirar” como todos os admiradores: aproveitando-me um pouco da glória da pessoa admirada; convencendo-me de que a admiro por causa das semelhanças, das afinidades, dos pontos de contato agradáveis. A mesma técnica voluptuosa do gato.

Sucede, no caso, que o poema em certo sentido mais brasileiro de Manuel Bandeira – “Evocação do Recife” – ele o escreveu porque eu pedi que ele o escrevesse. O poeta estranhou a princípio o pedido do provinciano. Estranhou que alguém lhe encomendasse um poema para uma edição especial de jornal como quem encomenda um pudim ou uma sobremesa para uma festa de bodas de ouro. Não estava acostumado – me escreveu de Santa Teresa – a encomendas dessas. Parece que teve vontade de não escrever poema nenhum para tal edição – que se tornou depois o Livro do Nordeste, organizado em 1925 para comemorar o primeiro centenário do Diário de Pernambuco. Mas um belo dia recebi “Evocação do Recife”.

Nesse tempo eu não conhecia pessoalmente Manuel Bandeira. Só de nome. Nem mesmo de retrato. E dos seus poemas – apenas uns três ou quatro. Entre eles, “Os sinos”, que até aprendi de cor:

Sino da Paixão

Bate bão-bão-bão.

Nossa amizade começou por carta. Começou com a carta que um dia recebi dele; que li com uma alegria enorme e que devo ter guardada entre os meus papéis mais queridos. Era uma carta cheia de simpatia pelos artigos meio líricos que eu andava então escrevendo no Diário de Pernambuco, num português ainda mais perro que o de hoje, português de quem tinha saído daqui quase menino para voltar homem feito, depois de cinco anos maciços de língua inglesa. Artigos sobre coisas de Pernambuco, do Recife, do Norte. Sobre a paisagem, sobre os nomes de rua, sobre a cozinha tradicional do norte do Brasil.

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