FAZER DO LIMÃO UMA LIMONADA! por Luzia de Maria

Eu fui uma criança da guerra. (…) Os aliados já haviam ocupado o sul da Itália, vinham subindo… (…) e eu lia. Olhava pela janela da nossa sala, via o símbolo do ‘fascio’ aposto à fachada do Duomo, e lia. Comíamos couve-flor sete dias na semana, um ovo passou a custar uma lira, dizia-se que o pão era feito de serragem, e eu lia. Deixamos a cidade, buscamos refúgio na montanha. Agora, acordando de manhã, todas as manhãs, as colunas de fumaça no horizonte nos diziam que Milão estava debaixo de bombardeios, e eu, ah! eu continuava lendo.”

No texto “Lendo na casa da guerra”, publicado no livro FRAGATAS PARA TERRAS DISTANTES, Marina Colasanti rememora os tempos de guerra, seus riscos e privações. Mas traz flashes solares que iluminaram sua infância: os livros que faziam parte da rotina familiar. Este texto vive em mim, e me pareceu essencial relembrá-lo neste momento: crianças quinze dias em casa, tão mal iniciaram-se as aulas. Devemos nos proteger do Coronavírus; mas é essencial proteger nossas crianças do pânico e do tédio.

No livro acima, “O CLUBE DO LIVRO – Ser leitor, que diferença faz?” (1ª. ed. Ed. Globo; 2ª: Global), relato minha experiência de formação de leitores no Liceu Nilo Peçanha, escola pública em Niterói, anos 1980. E nele estão 25 depoimentos de jovens do ensino médio em 1987, que ao assistirem minha entrevista ao Programa do Jô, quiseram me rever. Convidei-os para um café em minha casa. Este livro nasceu naquele encontro, 20 anos depois.

Mas por que falar dele hoje? Porque aqueles meninos, já envolvidos no prazer de ler, nos períodos de greve escolar abraçaram mais fortemente a leitura, e chegaram a ler, naquele ano, 70, 72 obras literárias. A ascensão social que tiveram foi formidável! Conquistaram posições respeitáveis na sociedade: fiscal da Receita Federal; avaliador de patentes no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial); defensor público; professores em universidades públicas, com mestrados e doutorados; advogados com escritórios próprios; empresários, etc.

Como fazer do limão atual, uma promissora limonada? Senhores pais, cultivem alegria em sua casa! Se os filhos ainda não leem sozinhos, aproximem-se deles, leiam juntos! Ter livros em casa é sempre providencial, em momentos de guerra, ou de recolhimento forçado! Lembrem-se sempre: o poder transformador da literatura – inclusive o poder terapêutico – é surpreendente! Busquem livrarias físicas e virtuais; bibliotecas, se porventura estiverem abertas. E BOA SORTE!