Rubem Braga: inéditos sobre literatura e vida

Gênio da literatura brasileira, admirado por várias gerações de leitores e autores, Rubem Braga tinha também sua coleção de escritores e poetas preferidos. A Global Editora lança agora, em junho, uma nova coletânea de textos inéditos em livro, com Rubem Braga escrevendo sobre escritores: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, entre outros. A seleção de O poeta e outras crônicas de literatura e vida, feita por Gustavo Tuna, apresenta textos que trazem seu humor característico e incomparável poder de encantamento.

Leia abaixo um trecho da crônica “O velho”, publicada no jornal Correio da Manhã, em 21 de outubro de 1952, sobre o escritor Graciliano Ramos, de São Bernardo, Vidas secas e outros clássicos da literatura brasileira.

Faz 60 anos este mês esse grande pessimista de coração de menino que se chama Graciliano Ramos.

Para mim ele sempre foi “o velho Graça”. Tenho tido na minha obscura vida mais honras que mereço: uma grande, e que especialmente me comove, foi a de ter sido seu companheiro de pensão, há uns quinze ou dezesseis anos atrás.

Meu quarto era de frente, na Corrêa Dutra, e dava para a ruazinha cheia de pensões, inclusive a casa das irmãs Batista. Seu quarto era o dos fundos, e dava para o zinco de uma grande garagem imensa, onde passeavam gatos vagabundos. Acho que foi Lúcio Rangel que nos levou para ali, eu com minha mulher, ele com a dele e duas meninas.

Até hoje não descobri com que artes heroicas sempre conseguimos, ainda que com atraso, pagar a pensão àquela velhinha meio pancada que só o chamava de Braziliano e nos explicava tranquilamente, quando a comida piorava muito, ou não havia manteiga no café da manhã, que fora infeliz na roleta; jogava sempre no número da catacumba do Flori, seu marido; mas o finado não dava muita sorte.

Eu ainda poderia lembrar aquele “tira” que ficou estupefato, quando começou a falar de Victor Hugo na mesa, para brilhar na conversação, e Graciliano, chateado, decretou rispidamente: “Victor Hugo era uma besta”; do intendente naval e sua senhora, que não era sua senhora; do Vanderlino; da alegre pensão do lado, com a bela morena que às vezes ficava nua com a janela aberta; da cerveja do botequim da esquina de Bento Lisboa.

O trecho final da crônica poderá ser lido no novo livro de Rubem Braga, assim como o texto “O poeta”, que dá nome ao livro e trata de Carlos Drummond de Andrade, ou “Meu professor Bandeira”, em que confessa a grande admiração pelo poeta Manuel Bandeira, que muita coisa o ensinou, a não ser “o pulo do gato da poesia”.

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