Papo de professor, com Cecília Meireles

A grande poeta foi também professora e pensadora da Educação no Brasil. Cecília Meireles teve espaço em importantes jornais brasileiros para escrever sobre o tema. E a Global Editora acaba de publicar uma caixa com cinco volumes das Crônicas de educação. Fonte de inspiração para educadores de todos os tempos, esses textos refletem a preocupação dos principais pensadores do século XX, a partir do entendimento de que não há progresso possível para o Brasil sem que se invista toda energia possível (dinheiro inclusive) e as melhores cabeças da nação nas escolas do país. Na apresentação feita pelo organizador dessa obra, Leodegário A. de Azevedo Filho, a questão é explicada minuciosamente, desde a publicação de um manifesto de importantes educadores, entre eles Anísio Teixeira, que provocou grande influência em Cecília. Abaixo, uma das crônicas, que faz parte do volume 4, e demonstra o tom de cumplicidade e franqueza da poeta com o professor.

Escola atraente

Fala-se na escola atraente para a criança. Que é preciso um ambiente agradável, sugestivo, rico de inspirações para a infância: acrescente-se que é preciso um ambiente assim, também, para os professores.

Tem-se pensado que o mobiliário feio, as paredes sujas, os enfeites fora da moda exercem ação perniciosa sobre as crianças; é preciso não perder de vista a impressão que causa aos professores o mesmo cenário, para o seu trabalho de todos os dias.

Diz-se que a escola triste e agressiva afasta os alunos, torna-os vadios, mostra-lhes, em contraste, a beleza das ruas cobertas de sol, enfeitadas de árvores, onde a liberdade dos pássaros canta a sua alegria.

Quantos professores, ainda hoje, não irão à escola sob o peso, a atuação do dever, duro e sombrio como uma condenação?

Deixam a sua casa florida, alegre, clara, onde a vida também canta, sedutoramente. Encontram a escola com o conjunto das suas hostilidades: o relógio feroz, que não perdoa os atrasos do bonde; o livro de ponto ferocíssimo, com a sua antipática roupagem de percalina preta e a sua sinistra numeração, pela página abaixo… De toda a parte surgem objetos detestáveis: réguas, globos poeirentos, borrachas revestidas de madeira, tímpanos, vidros de goma-arábica, todas essas coisas hediondas que se convencionou fazerem parte integrante da fisionomia da escola, e que são acreditadas indispensáveis e insubstituíveis. Coisas mortas. Coisas de outros tempos. Coisas que se usaram nas escolas de nossos avós e de nossos pais. Não se pode pensar em familiaridade, em proximidade infantil, em vida nova, em educação moderna, no meio dessa quantidade de mata-borrões, de mapas com demarcações arcaicas, de balanças que não funcionam, de moringas de gargalo quebrado, de caixinhas de sabonete para guardar giz, e das coisinhas armadas nas tabuinhas dos armários chamados museus, nas quais não se pode bulir para não estragar, e que têm um rotulozinho em cima, tal qual os vidros de remédio.

Vamos pôr fora todas essas coisas velhas? Vamos ordenar uma limpeza geral nas escolas, ainda que fiquem apenas com os bancos para as crianças se sentarem?

O que for sendo preciso irá surgindo, pouco a pouco, das mãos das crianças e dos professores, conjuntamente. Ir-se-á povoando a escola não com essas coisas detestáveis que aí estão, mas com pequenos objetos feitos com carinho, com esse carinho que embeleza e enriquece tudo.

Muitas professoras não teriam na sua casa, com certeza, uma velha moringa dessas que habitam, infalivelmente, as janelas das salas de aula. Não quereriam na sua casa, nem na cozinha da sua casa, semelhante caco. Mas têm-no na escola. É a escola… Mas, então, que é a escola? E que afronta é essa à sensibilidade de centenas de crianças?

A moringa é apenas um exemplo.

Algumas professoras vão com desgosto à escola, dizíamos. Por que não modificam elas esse ambiente que as desagrada?, perguntareis.

Porque acima da sua vontade estão acumuladas muitas rotinas de outras vontades. Porque, algumas vezes, a manifestação de um natural bom gosto, de uma cultura mais apurada, serve de base a ridículas insinuações, e a críticas mordazes.

Porque ainda não temos um meio homogêneo, mesmo dentro dos limites do magistério.

Porque ainda não temos, infelizmente, uma totalidade de professores capaz de agir simultânea e solidariamente nesta obra de reorganização pedagógica que representa, para o Brasil inteiro, uma etapa de progresso que todos os esforços devem denodadamente acentuar.

Rio de Janeiro, Diário de Notícias, 31 de julho de 1930

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