3 motivos para conhecer e amar as obras de José Lins do Rego

Entre as obras mais famosas do autor José Lins do Rego, nascido em 3 de junho de 1901 no Engenho do Corredor, interior da Paraíba, está o que ficou conhecido como o “Ciclo da Cana-de-Açúcar”. Os romances que compõem a série de livros, que é ao mesmo tempo um relato profundamente pessoal e uma delação sobre um Brasil em mutação, são em ordem cronológica: “Menino do Engenho” (1932), “Doidinho” (1933), “Banguê” (1934),”Usina” (1936) e “Fogo Morto” (1943). 

Desde de agosto de 2020, a Global vem publicando seus romances, começando por “Menino do Engenho”, seguido por “Doidinho”, “Fogo Morto” e agora, finalmente, “Banguê”, terceiro romance do “Ciclo da Cana-de-Açúcar” e encerramento da jornada de Carlos, protagonista das três primeiras obras. 

Um dos autores brasileiros mais importantes do século XX e até mesmo nos dias atuais,  nós listamos aqui 3 motivos para ler, conhecer, estudar e amar as obras que compõem o “Ciclo da Cana-de-Açúcar”, de José Lins do Rego:

Um estudo sobre um Brasil em transição

A ordem de lançamento dos livros não necessariamente precisa ditar a ordem da sua leitura, mas ao mostrar a jornada de seus protagonistas e ao mesmo tempo explorar as mutações profundas que aconteciam no nordeste, José Lins do Rego cria uma metáfora sobre mudanças, exemplificando com perfeição como costumes se sobrepõem e mudam com o passar dos anos. 

A narrativa começa estudando as heranças escravocratas na cultura canavieira, que começou ainda no século XVI, e passa a mostrar como o engenho foi gradualmente sendo substituído pela usina, marcando assim o fim do patriarcado rural nordestino. 

A modernização acontece e ao mesmo tempo muda a vida não apenas do avô de Carlinhos, figura que protagoniza os três primeiros romances, mas também das pessoas que trabalhavam nos engenhos.

Esse aspecto, inclusive, é apontado pelo próprio Carlinhos, que narra em primeira pessoa “Menino do Engenho”, “Doidinho” e “Banguê”. Ele aponta as mudanças de forma pontual ao decorrer, principalmente, do terceiro livro, mas também percebe como esse fator afeta as pessoas ao seu redor, percebendo a abundância tão presente na sua vida, e faltando na rotina dos filhos dos trabalhadores do engenho. 

“Ouvira falar das usinas pelos moradores que voltavam de Goiânia. Quando ele me dizia que as moendas puxavam a cana numa esteira, eu me espantava (…)” 

Um estudo sobre personagens e suas jornadas 

O primeiro livro do “Ciclo da Cana-de-Açúcar” é “Menino do Engenho”, publicado pela primeira vez em 1932. Nele, conhecemos Carlinhos, que nasceu no engenho do seu avô José Paulino, em Santa Rosa, e acompanhamos sua vida entre as idades de 4 e 12 anos. Já os dois romances que se seguem, “Doidinho” e “Banguê”, abordam fases completamente diferentes da trajetória do protagonista. Em “Doidinho” a narrativa explora a transição complicada entre a infância e adolescência e “Banguê”, por fim, mostra Carlos como um homem feito, bacharel em direito e com seus 24 anos. É nessa obra também que ele retorna para o engenho do avô, que está com uma doença em estado terminal. 

“Em casa, era Carlinhos, ou então Carlos, para os estranhos (…) Tinha também o meu apelido: chamavam-me de doidinho.”

Como apontado pelo texto anteriormente, essas obras são narradas em primeira pessoa, criando uma conexão quase instantânea entre Carlos Melo e o leitor. Durante “Doidinho”, por exemplo, o protagonista compartilha sua rotina em uma escola cheia de regras e professores autoritários. Órfão e praticamente sozinho no mundo, Carlinhos, ou Doidinho, apelido que ganha e também dá título ao segundo romance, ele se volta para o mundo dos livros, buscando conforto na trajetória de personagens cujo as jornadas são parecidas com as suas.

Aos poucos, o leitor acompanha Carlos crescer e passar de um menino sensível e que absorvia as coisas com base nessa característica, para um homem com uma moral um tanto quanto contraditória. Ao se tornar um homem, por exemplo, ele adquire plena consciência da exploração degradante dos trabalhadores do engenho. 

Vale também observar que a trajetória de Carlinhos se assemelha bastante com a do próprio autor, tirando alguns detalhes pontuais aqui e ali. É essa característica um dos fatores que contribui muito para a mistura orgânica que José Lins do Rego traça ao fazer uma narrativa que envolve denúncias sobre uma época muito específica do nosso país, mas também algo que é pessoal e expressa os sentimentos humanos de forma complexa. 

Na medida em que Carlos cresce e muda, o Brasil também. Traçar um paralelo entre as mudanças do protagonista e das coisas ao seu redor é um dos (vários) triunfos da narrativa de José Lins do Rego.

Outra coisa que o autor faz muito bem, no entanto, é essa mistura entre o regionalismo e o modernismo.

Fogo Morto

Considerado por muitos a obra-prima suprema de José Lins do Rego, aqui o autor passa a escrever sua história por meio de um narrador onisciente e divide sua narrativa em três momentos distintos. 

No primeiro, ele conta as desventuras de José Amaro, que mora no Engenho de Santa Fé e passa por uma série de provações; no segundo, a figura principal é Lula de Holanda, senhor de engenho de Santa Fé. Aqui, a trama faz uma breve retomada até o momento em que o engenho foi construído, chegando até os momentos de sua decadência; e, por fim, a história aborda as jornadas de Capitão Vitorino pelas estradas que cercam Santa Fé.

Os três momentos do livro se cruzam, criando uma conexão entre os três personagens e suas respectivas trajetórias. 

Mas por que esse livro é considerado uma obra-prima? 

Ao misturar essas três narrativas, ele não apenas explora o estopim de um Brasil mudado e cruel, como também a vida de pessoas que foram profundamente afetadas por esses mesmos fatores, ainda que de formas bem diferentes. Um romance “híbrido”, que mistura ficção e realidade, “Fogo Morto” é poderoso pois explora tudo que existe de bom nas histórias de José Lins do Rego: sua escrita pessoal e sincera, e ao mesmo tempo com o tom dramático e pertinente.