Resenha do Livro “Gilberto Freyre – Crônicas Para Jovens” Pelo Professor Pedro Paulo Abreu Funari

A Global apresenta mais uma obra de referência, agora pelas mãos de Gustavo Henrique Tuna, premiado estudioso da obra de Gilberto Freyre, também agraciado por prestigiosos Prêmios Jabuti. A seleção de Tuna é preciosa, assim como seu instigante prefácio, “Percursos da Crônica”, que volta ao historiador antigo Heródoto, ao aproximar a abordagem antropológica do autor grego antigo do quinto século V a.C. e ao pioneiro sociólogo brasileiro. Destaca dois aspectos: a observação e a recriação, por meio da imaginação, visando atingir a alma dos leitores, a partir da vida ao rés do chão. Palavra chave usada por Tuna é a empatia, o colocar-se o lugar do outro.

Os temas selecionados são cinco: passado e presente, alimentação, mundo natural, infância e cidades. Tuna mostra como a crônica é o gênero literário mais popular no Brasil, tornado magistral, na pena de Gilberto Freyre. São textos curtos e saborosos, publicados em jornais e revistas, desde a década de 1920 até quase o final do século XX. Freyre talvez possa ser considerado o grande pioneiro na Antropologia brasileira, conectado com o povo, mas erudito, regional e recifense, mas também universal. Somos nós, leitores atuais, a valorizar as sementes de futuro e de convívio, como será nesta ocasião. Tudo é saboroso, nesta coletânea. Um povo que devasta o seu passado (1923, p. 25), que muda a Rua da Crioulas para um pomposo Numa Pompílio (1923, p. 30), nomes antigos e enraizados, como Encantamento, Chora Menino ou Trincheiras (1924, p. 35).  Mas, o povo continua gregário (1956, p. 39). Por isso mesmo, come-se bem, de maneira ritual (1969, p. 51), o paladar segue onde quer que se esteja (1977, p. 53).

O amor pela natureza serve a questionar hierarquias e a propugnar a fraternidade entre as nações (1924, p. 58), a valorização das árvores (1925, p. 64), a contestação da suposta superioridade de europeizados frente a provincianos (1926, p. 66), a defesa das populações desprotegidas (1963, p. 69). Propugna o uso de brinquedos a serviço do pacifismo, não do militarismo, do internacionalismo, não do nacionalismo agressivo (1949, p. 77), do construtivo e arquitetural, não do belicoso e militarista (p. 79), pela personalização dos animais (1956 p. 83). Já em 1921, cem anos atrás, constata uma China americanizada e europeizada (p. 91), em contraste com as ruas estreitas do Rio, do Recife, parentas das de Lisboa (1926 p. 95), que convidam a andar a pé, em oposição ao imperialismo do automóvel (1926, p. 96).

Pode dizer-se que Gilberto Freyre, para além da prosa tão encantadora, pode servir a inspirar. Como outras todas as personalidades do passado, Freyre estava condicionado e compartilhou o senso comum de sua época. Mas, apresentou perspectivas de futuro originais, de convivência, se tivermos olhos de ver, ouvidos de ouvir. Karl Marx, ao criticar o capitalismo, tinha-o como força de progresso e de abertura para o novo homem, para o progresso e para o comunismo final e permanente. Michel Foucault não deixou de saudar a revolução iraniana, pelo seu potencial, mas cujo desfecho foi em tudo contrário à liberdade e ao convívio. Gilberto Freyre, nestas crônicas saborosas, lembra-nos que somos humanos e que podemos almejar por um futuro de convívio.

  • Pedro Paulo Abreu Funari -Professor Titular de História Antiga da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)