A biblioteca que uma ditadura engoliu

Em 1934, fazia apenas doze anos da primeira transmissão de rádio no Brasil, e o país ainda estava a dezesseis anos do início da TV. Somente esses dados sobre meios de comunicação já mostram que os tempos eram realmente outros. Eram menos marcas nas prateleiras de lojas e mercados. Eram menos títulos de livros nas livrarias. Infantis, então… Cecília Meireles nessa época já era uma poeta muito respeitada, mas não ainda com a grandeza que alcançaria com as obras que lançou depois, principalmente a partir do livro Viagem, entre 1938 e 1939. O presidente era Getúlio Vargas, mas a Ditadura do Estado Novo só teria início em 1937. Então, em 1934, temos esse cenário em que Cecília, além de poeta, atua como cronista da área de educação em grandes jornais do Rio de Janeiro, capital do Brasil. Anísio Teixeira, um dos grandes pensadores (e realizadores) da educação no país, ocupando cargo público na área, escolheu Cecília para montar e dirigir a primeira biblioteca infantil brasileira. Imagine: a primeira de todas especializada em livros para crianças – esta informação de que a biblioteca criada por Cecília no Rio foi a primeiríssima do Brasil, no entanto, não é unânime. Como nos informou Rafael Balseiro Zin, Pesquisador do Centro de Memória e Acervo Histórico da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, “a primeira biblioteca escolar para uso dos alunos do curso primário foi Biblioteca Infantil “Caetano de Campos”, fundada na então Escola-Modelo, em São Paulo, em 28 de maio de 1925, por iniciativa do professor Carlos Alberto Gomes Cardim, diretor da Escola Normal da capital”.

Como se fosse um poema, Cecília enfrentou o desafio no seu limite máximo. De acordo com relatos que podem ser encontrados na internet, como o estudo da pesquisadora Jussara Santos Pimenta pela PUC-RJ, o que ela fez foi uma revolução. Cecília montou a biblioteca, sim, mas também uma programação para crianças que saíam das aulas e iam para o lugar, onde aprendiam atividades manuais e também assistiam a filmes, além de terem acesso a bons livros. Antes, as bibliotecas não permitiam que crianças circulassem sem adultos junto, e lá isso era permitido.

A primeira biblioteca infantil brasileira funcionava, para ajudar, num lugar que parecia de contos de fadas, uma espécie de castelo à beira-mar, o Pavilhão Mourisco, no bairro de Botafogo – construção no início do século XX que tinha uma arquitetura de cultura muçulmana. Dentro, aproveitando o ambiente, o então marido de Cecília, o ilustrador português Fernando Correia Dias, montou um cenário inspirado nos contos clássicos das Mil e uma noites.

A coisa toda foi avançada demais para a época (como se fosse um defeito, sendo uma óbvia qualidade). Em 1937, como acontece normalmente em ditaduras, muitos chefetes ganham poder demais e tomam decisões despóticas. Um desses pequenos ditadores mandou fechar a biblioteca com o pretexto de que oferecia livros “perigosos” para as crianças, com “conotações comunistas”. O exemplar usado para embasar o desmando foi As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.

A experiência e ousadia de Cecília Meireles não foram em vão. O conceito dessa biblioteca influenciou a criação de outras pelo Brasil. E a poeta, nesses anos muito intensos de sua vida, escreveu mais para jovens e crianças, aplicando nos textos seu entendimento de que, não importa a idade, deve-se respeitar a inteligência das pessoas, apresentando desafios de linguagem, principalmente, e reflexão.

Neste link pode-se ler o texto completo da pesquisadora Jussara Santos Pimenta, com muitos detalhes e ainda um rico depoimento do poeta Geir Campos, que foi uma das crianças que frequentaram a biblioteca do Pavilhão Mourisco.

Pavilhão Mourisco

 

Neste outro link pode-se conhecer mais da construção fantástica, que depois da biblioteca infantil de Cecília virou um centro de coleta de impostos e depois acabou demolida.