Autora Lúcia Hiratsuka fala sobre o processo de criação de suas obras

Ilustradora, autora e pesquisadora, Lúcia Hiratsuka é formada em Artes Plásticas e estuda as lendas do Japão desde a década de 1980, quando esteve lá a convite do governo da província de Fukuoka, e pesquisou sobre a utilização do desenho na literatura infantil.

Pensar nas possibilidades: narrar uma história com palavras e imagens; com muitas palavras e poucas ilustrações; ou só com imagens; é um desafio e tanto, que eu adoro. Só posso falar de dedicação, mergulhar naquilo que tenho de melhor e produzir com carinho.

É assim que a Lúcia define a arte de escrever e ilustrar. Em 1995, seu trabalho recebeu o prêmio APCA e a coleção Contos e Lendas do Japão recebeu a rubrica de Altamente Recomendável, concedida pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ. Pela Global Editora tem publicado Urashima Taro – A História de um Pescador, da tradição oral japonesa, cuja adaptação e ilustrações são de sua autoria, assim como Antes da Chuva e Corrida dos Caracóis. Ilustradora de obras de grandes autores como Cecília Meireles e Cora Coralina, Lúcia conta que, ao ilustrar, prima pela sintonia da obra como um todo.

Quando ilustro um livro de outro escritor, eu fico atenta para ver se a imagem está realmente em sintonia com o texto, se está valorizando o texto, conta.

Veja a entrevista de Lúcia Hiratsuka na íntegra:

Como você decidiu que queria ser ilustradora?
Quando criança, eu vivia rabiscando no chão do quintal, nas paredes da tulha, no terreiro de café, gostava de ouvir histórias, criar histórias, ler livros, procurar figuras. Descobri que poderia trabalhar com ilustração depois que terminei a Faculdade de Belas Artes, era uma forma de conciliar essas paixões: livros, desenhos, histórias.

Como pesquisadora, autora e ilustradora, o que você pensa sobre a ilustração de livros infantis?
Li numa entrevista da Binette Schroeder, autora/ilustradora alemã, que enquanto estudante você deve esquecer o estilo e experimentar de tudo. E depois de ter uma boa formação é o momento de se expressar mais livremente (Japão, revista MOE,1988).  E  Massao Okinaka, pintor e mestre de sumiê, também salientou a importância do artista buscar a sua essência.  Chihiro Iwasaki, autora/ilustradora japonesa, comentou que valorizava as relações humanas, incluindo as dificuldades, para conseguir fazer um bom livro para crianças. Essas palavras me acompanham e se juntam às muitas outras que ouvi ou li. Talvez apenas a técnica não seja tudo para ilustrar um livro, mas enquanto apuramos a técnica, o conteúdo que está dentro de nós emerge e criamos algo muito pessoal. Quando ilustro um livro de outro escritor eu fico atenta para ver se a imagem está realmente em sintonia com o texto, se está valorizando o texto.

A autoria de livros veio naturalmente? Como foi esse passo?
Eu cheguei a enviar uma história com desenhos para um concurso no Japão, devia ter uns 8 ou 9 anos. O concurso era para adultos, não tinha nenhuma chance. Mas, revendo isso, percebo que o desejo já estava lá atrás. Depois que saí da Faculdade Belas Artes, tive a sorte de conhecer a Eva Furnari, que me orientou e me inspirou. No momento de procurar o primeiro trabalho, criei uma história e montei um boneco como portfólio.  Isso foi em meados dos anos 80.  Em 1988, consegui uma bolsa para estudar na Universidade de Educação de Fukuoka no Japão, por um ano. Continuei a estudar sobre os livros ilustrados e voltei com a ideia de recontar as lendas japonesas que eu conhecia pela voz da minha avó. Estudei por mais um tempo as técnicas de pintura a óleo, assistia às aulas de Literatura Infantojuvenil na USP  e, entre 1993 a 1996, lancei a coleção Contos e Lendas do Japão. O livro Urashima Taro fez parte dessa coleção e foi relançado pela Global em 2001.

Você sempre quis escrever especificamente para crianças?
Sim. Gosto de pensar que uma criança irá abrir o livro e sentir que algo irá acontecer ali dentro. Acho que se o livro for bem feito para crianças, pode encantar um adulto. Li que uma das coisas que a deixa fascinada é a questão da narrativa, de pensar no livro como um todo.

Para que um livro tenha sucesso, qual é a receita?
Pensar nas possibilidades: narrar uma história com palavras e imagens, com muitas palavras e poucas ilustrações, ou só com imagens, é um desafio e tanto, que eu adoro. Só posso falar de dedicação, mergulhar naquilo que tenho de melhor e produzir com carinho. E acho importante não publicar tudo, nem publicar com muita pressa, deixar maturar um tempo os textos.

Como é, para você, o processo de autoria de um livro? E de ilustração?
Eu gosto de começar pela história. Muitas vezes a história começa com uma imagem. Busco inspiração na minha memória e também na memória da minha família. Quando sou tocada por algo, que ainda é apenas uma promessa de história, eu guardo isso comigo por um tempo. Em algum momento crio coragem para colocá-lo no papel.  Tento imaginar uma cena, como num filme, onde uma palavra puxa outra, assim vai. E vem um longo processo de cortar ou explorar o que faltou. Depois, inicio a produção do boneco, entram as ilustrações, continuo mudando frases, mudando desenhos. Nem sempre as ideias iniciais permanecem. Tem histórias que se transformam e no final ficam bem diferentes do que imaginei no começo.

Quais são as técnicas que você utiliza e de que forma elas enriquecem a obra?
Em Urashima Taro e em O menino azul de Cecília Meireles, pintei com tinta acrílica. A que eu mais uso é aquarela e tinta guache, com grafite. Foi assim em Corrida dos Caracóis e Antes da Chuva (da coleção Lia e Nico) e no Prato Azul-Pombinho da Cora Coralina. Depois que estudei o sumiê, sempre entra um toque dessa técnica: as pinceladas, o uso do espaço vazio, elementos que dão uma identidade aos meus trabalhos.

Como foi a construção da obra Urashima Taro, que é uma lenda japonesa milenar?
Essa história fala da generosidade, da vida, da morte, do tempo, das transformações, de uma forma fascinante para qualquer idade, é universal, continua a me intrigar. Busquei inspiração nas gravuras japonesas, tentei dar transparência usando a acrílica, usei bastante espaço branco e cores fortes, tentei manter a delicadeza.

E com a obra Antes da Chuva, você recebeu o selo Altamente Recomendável FNLIJ e já recebeu outros prêmios, incluindo dois Jabutis de ilustração.  O que estes prêmios representam para você?
Prêmio sempre me deixa feliz por ser um reconhecimento do empenho, mas fico atenta para não perder o meu caminho. E esse caminho eu encontro quando faço a pergunta: qual era o meu sonho desde criança? Era trabalhar com desenhos e histórias.

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