A menina, o coração e a casa – Impasses, dores e alegrias

Resenha crítica do livro A menina, o coração e a casa escrita por Silvia Oberg e publicada pela Revista Emília

 

A escritora argentina Maria Teresa Andruetto possui uma importante obra dedicada a crianças e jovens e recebeu, entre outros prêmios, o Hans Christian Andersen de 2012. Dentre os seus muitos livros, apenas A menina, o coração e a casa foi publicado no Brasil até o momento.

Neste livro, as relações afetivas e dificuldades vivenciadas por uma família são contadas em ritmo pausado e em tom poético pelo narrador, que desenrola com delicadeza os fios que entrelaçam a história da menina Tina com as de seu pai, sua mãe, seu irmão, sua avó Hermínia, que lê cartas do Tarô, sua outra avó – Ernestina – que nunca conheceu e de quem herdou o nome, entre outros personagens.

Pouco a pouco, algumas situações se delineiam: Tina mora com o pai e vó Hermínia em uma cidadezinha e todos os domingos visita a mãe, Silvia, e o irmão, Pedro, que vivem em outro vilarejo. A menina guarda um segredo que é, ao mesmo tempo, uma inquietude: seu irmão tem “olhos puxados”, “de chinês” e, por isso, faz muitas visitas ao hospital e tem que ser cuidado pela mãe o tempo todo. Por esta razão, segundo lhe foi explicado, não vivem todos juntos na mesma casa e na mesma cidade.

Se há alegrias, afetos e descobertas, certamente há também uma dor profunda no coração de Tina: a separação da mãe e o motivo dado para este fato – o irmão diferente, com síndrome de Down, que exige cuidados especiais – a fazem experimentar, ainda que não saiba nomear, uma sensação de abandono, um sentimento que não consegue compreender inteiramente.

A narração, quase sem diálogos, apresenta os personagens e seus estados emocionais em um texto que oscila entre revelar e deixar certas passagens, indagações e explicações envoltas em sombra: cabe ao leitor imaginar que caminhos levaram Tina e sua família a viverem separados e acompanhar o desenrolar da história. A alternância do visível, do que está fora – a rotina da casa e da escola, as amizades, as viagens para encontrar-se com a mãe e o irmão aos domingos – com o que está dentro – os afetos, descobertas, dúvidas, mágoas – resulta um texto sutil, que pede a atuação do leitor, com sua imaginação e sensibilidade, para ressignificar o que lê.

A narrativa apresenta um mundo que não é perfeito, no qual nem tudo pode ser compreendido ou tomado como completamente certo ou errado. Nele, os adultos não têm todas as respostas e as crianças nem sempre são poupadas de experiências dolorosas. Ainda que com diferenças, não apenas Tina, mas também Silvia, sua mãe, vivenciaram separações. Ao saber que Silvia foi abandonada pela mãe quando criança, Tina lhe pergunta:

Por que nunca voltou?
Não sei, filha. As pessoas são estranhas.
As mães também?, perguntou Tina.
Sim, as mães também.

A história não idealiza adultos ou crianças, pais ou filhos e nela, também as mães e pais podem ser estranhos, ter inseguranças e comportamentos pouco usuais. O desafio de Tina é buscar o seu equilíbrio, brincar com bonecas, comer amendoim torrado com açúcar, às vezes se desentender com a melhor amiga, se divertir aos domingos com o irmão, ouvir as histórias contadas pelo pai, acordar com pesadelo no meio da noite e ser, também, uma menina e sua dor, determinada a não deixar que com ela se repita a história de sua mãe, pois sabe que “se há algo que não quer, se há algo que não fará quando crescer, é ser como sua mãe.”

Se a realidade está longe de ser perfeita, por outro lado, pode ser modificada. E é o afeto que nutre pela família, a espera pela visita dos domingos e o desejo de que um dia possam estar reunidos novamente em uma mesma casa que dão sustentação à menina e força para lutar por seus desejos. Por esta razão, Tina não espera, como quer a avó, até ficar grande para que ela lhe deite as cartas do baralho de Tarô e apareça a figura da Imperatriz para que possa ir morar com a mãe. “E de que vai lhe adiantar, pensa Tina, ir morar com a mãe quando for grande, se precisa dela agora?”. A vida tem suas urgências e, conforme compreende o que acontece a sua volta e dentro de si mesma, a menina se amadurece e consegue provocar mudanças em seu cotidiano e no de sua família. Deste modo, a história não subestima a capacidade do leitor infantil de entrar em contato com questões que, embora façam parte da vida, nem sempre frequentam a literatura para crianças. De modo sensível e com delicadeza, o narrador nos leva a um universo que incorpora impasses, dores e alegrias que fazem parte do processo de amadurecimento de todos – crianças, jovens e adultos.

A citação de Audre Lorde, no início do livro, fornece pistas sobre o conteúdo e o desfecho de A menina, o coração e a casa: “Traça-se um mapa de onde já se esteve. Mas ainda não há mapa do lugar para o qual nos dirigimos”.  Para onde vão os personagens? Onde estão as respostas para as perguntas feitas por Tina? A história não nos conta tudo, não nos explica tudo, mas expõe tristezas profundas, amores verdadeiros e mostra como Tina se torna protagonista de sua própria vida traçando, a partir de suas experiências, os caminhos que deseja seguir.


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