Melhores Contos, de João Guimarães Rosa: uma reunião das melhores características do autor

Apesar de ter sido publicado pela Global após os outros livros que já foram mencionados no blog, a coletânea de “Melhores Contos” de João Guimarães Rosa funciona tanto como uma espécie de aprofundamento para as outras histórias do autor, quanto como um ótimo ponto de partida. 

Uma coleção de histórias organizada por Walnice Nogueira Galvão, professora que tem mais de 40 livros, sendo 6 deles sobre o autor, “Melhores Contos” serve como um ótimo apoio para quem quer desvendar o universo explorado por Guimarães Rosa e suas particularidades. O que, no caso, fez com que ele se tornasse um escritor tão aclamado e estudado por especialistas. Na coletânea, as tramas presentes são divididas em quatro partes distintas, sendo que cada uma delas aponta uma dessas qualidades dentro do escopo dos próprios contos. As categorias são: Metalinguagem, Perquirição do Outro, Humor e Progressão do Narrador. 

A primeira característica explorada é a metalinguagem, talvez o fator mais importante das suas obras. João Guimarães Rosa é, acima de  tudo, um inventor da linguagem, alguém que girou a roda nesse aspecto. Obviamente, esse fator acaba afetando muito a “fluidez” da sua narrativa, sendo que em cada uma das páginas fica claro a sua necessidade de entender a linguagem em si – e como, claro, ela está presente na rotina diária de seus personagens (mesmo que as circunstâncias narradas ali nem sempre sejam tão “rotineiras” ou “comuns”). De certa forma, esse aspecto tem uma ligação direta com o segundo item, intitulado de Perquirição do Ouro. 

Neste caso, Walnice explora a forma como o autor tenta “desmontar” estereótipos e como as narrativas têm uma grande riqueza de diversidade cultural, algo que também é representado pela língua, os maneirismos de cada um falar. As ambientações, os animais e os humanos são retratados de acordo com o contexto do lugar de que eles vem, dando uma visão mais empática para suas histórias, motivações e, consequentemente, ações. 

Isso tudo, claro, sem perder o humor, terceiro item na lista. Muito é falado sobre sua característica linguística e a jornada de seus personagens (itens que com certeza devem ser mencionados), mas essa parte do livro ressalta um fator que é quase subestimado por leitores: seu ritmo cômico, essa veia que corre de forma natural por toda a narrativa, por vezes ressaltada com mais força pelo trabalho do narrador, o quarto e último item, sendo que dependendo do seu papel na estrutura da história em si, representa coisas diferentes em cada conto.

Os itens mencionados acima, quando são combinados com harmonia, criam histórias que são plurais, interessantes e atemporais, algo que João Guimarães Rosa já tinha expressado ser um dos seus principais objetivos. 

Todos os elementos presentes em Melhores Contos também estão presentes nos outros livros do autor, que às vezes tem contos em outras formas: mais curtos ou compridos, complexos ou leves. Mesmo que muito diferentes entre si, as histórias têm uma grande conexão pelo estilo único do autor, algo ressaltado pela sua linguagem, seu humor e sua diversidade para abordar a condição humana na sua forma mais pura e honesta. Se é isso que você procura em uma obra, a coletânea é um ótimo ponto de referência.