Manuelzão e Miguilim: histórias sobre diferentes fases da vida

Continuando a explorar as obras de João Guimarães Rosa, chegamos em “Manuelzão e Miguilim”, originalmente parte do livro Corpo de Baile e posteriormente desmembrada pelo próprio autor em três volumes, que tem uma estrutura completamente diferente de “Sagarana”, esse, por sua vez, não apenas o primeiro que foi explorado pela Global, mas também a primeira obra de Guimarães Rosa.

Ao contrário do primeiro livro do autor, que foi construído com contos, esse tem apenas duas novelas, que colocam dois personagens completamente diferentes (em todos os aspectos) no centro de suas respectivas narrativas. Esse é um fator determinante dentro do escopo da própria obra, que tem ritmo e questionamentos das duas histórias com base nos sentimentos dos seus personagens centrais, e fases diferentes que eles passam na vida. 

Esse elemento, mais o fato de que, apesar de ser narrado em terceira pessoa, existem muitos fragmentos na história do que os dois realmente pensam, contribuem para a criação de duas novelas que servem como um contraponto direto uma para outra. Enquanto na primeira vemos um menino de 8 anos, descobrindo as dores e os prazeres da infância, bem como a perda da inocência, no segundo a figura central passa a ser um homem formado, com mais de sessenta anos, cujo os próprios impulsos são carregados de bagagem, afetos e várias histórias que o formaram. De certa forma, é possível dizer que o autor explora os “instintos” (que são descritos como “atos adequados às necessidades de sobrevivência própria”) não como algo simples, mas sim como algo que vem de dentro das pessoas e das suas experiências como humanos (marcados pelo tempo, ou não). Mesmo que ele aborde algo tão irracional como o instinto, esses pensamentos são colados de forma elaborada e complexa, criando algo que é narrativamente rico e plural. 

A primeira história é intitulada “Campo Geral”. Nela, conhecemos e acompanhamos Miguilim, um menino de apenas 8 anos. Com uma trama que cobre noites e dias, o ponto principal é o amadurecimento do menino – que passa por uma jornada complicada, como geralmente é a transição bruta da infância para a vida adulta, ainda levando em conta seu contexto social, as figuras paternas de sua vida e as condições do ambiente ao seu redor. 

Como a história é contada por meio do ponto de vista de uma criança de 8 anos, os sentimentos complexos e humanos que ele experimenta são absorvidos pelo mesmo, e consequentemente pelo público, de forma mais branda, talvez até um pouco mais ingênua, principalmente no começo da história. Como o passar do tempo e na medida em que ele amadurece, essa perda de “inocência” muda um pouco a forma da narrativa, o que faz com que toda a leitura seja mais interessante e profunda. Na novela, as relações familiares de Miguilim são a parte mais importante da mistura, fazendo com que grande parte das suas ações sejam motivadas por esse mesmo fator. 

A dura realidade em que ele vive também faz parte intrínseca da narrativa e as situações em si nem sempre são compreendidas com totalidade pelo protagonista, que continua seguindo seu coração e tenta fazer a coisa certa, mesmo que mais tarde sofra com isso. Como é o caso da vez em que, ao defender a sua mãe do irmão mais velho, que estava batendo nela, acaba sofrendo as consequências e ficando de castigo. 

Miguilim não necessariamente está ciente do conflito entre o certo, errado, bem e mal e todos os outros maniqueísmos explorados na obra, mas o leitor vê, ainda que de forma mais leve, tudo isso mudar a forma que ele está olhando para o mundo. 

Existe uma pequena quebra na narrativa entre a história de Miguilim e a de Manuelzão. Se a primeira aborda um espaço de tempo maior, a segunda acontece inteiramente durante o começo da comemoração de inauguração da Capela que o protagonista constrói em homenagem a sua mãe. Um homem com mais sessenta anos, a novela, intitulada de “Uma Estória de Amor”, também se apoia nas relações interpessoais do homem, mas ao situar sua trama em um espaço mais curto de tempo, cria uma análise interessante sobre a forma que as duas novelas se encontram: a primeira sempre seguindo em frente e levando Miguilim para o seu futuro, e Manuelzão estagnado em um único momento. 

Por estarem em épocas muito diferentes de suas respectivas vidas, suas reações perante aos próprios sentimentos são mostradas e absolvidas de formas também distintas. O que os une são essas relações pessoas que ambos mantêm e o impacto das mesmas em suas rotinas, na forma como veem o mundo. O jeito que a história também lida com a natureza e as descrições das ambientações, a presença constante de animais e outros fatores (também vistos em “Sagarana”), de certa forma criam uma ligação entre as duas novelas. Afinal, os detalhes dos campos abertos descritos ali são bem semelhantes e, por isso, fica claro que é tudo relativamente perto.  

Qual é a evolução de Sagarana para este livro? 

A linguagem presente em “Sagarana”, aquela que ficou/é conhecida como “o sertanejo mineiro”, fica ainda mais acentuada em “Manuelzão e Miguilim”. Apesar das novelas serem mais fáceis de ler, com uma narrativa que pode ser considerada mais “fluida”, é possível perceber um domínio melhor do autor na sua própria arte – algo que pode muito bem ter surgido com o passar do tempo e o aumento da experiência em si. 

No resultado final, “Sagarana” tem histórias que são mais marcantes, mas realizar o comparativo entre as duas novelas presente neste livro, eleva “Manuelzão e Miguilim” a algo diferente. Tão complexo quanto o seu antecessor, mas mais ciente do conjunto completo da obra em específico.