A sensibilidade real na narrativa de Marina Colasanti

O Google define solidão como um “estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só. Isolamento”. A cultura, no geral, sempre foi obcecada em retratar o sentimento, de formas que se diferenciam e variam. A sensação de que estamos sozinhos permeia a existência do ser humano desde os seus primórdios e com o passar do tempo (e apesar das formas de conexão aumentarem), essa sensação fica mais profunda e causa cada vez mais ruptura entre as pessoas. Não apenas de um jeito que implica fatores como a globalização, causando com que nações se sintam cada vez mais próximas e, ao mesmo tempo, estejam cada vez mais separadas, mas também nas relações interpessoais. No geral, é inevitável que isso seja abordado em filmes, séries, músicas e, principalmente, na literatura. Sempre. Mas hoje, mais do que nunca. O que nos leva ao próximo ponto: o que é uma representação boa do que é a solidão e os sentimentos que chegam com a mesma? 

Semana passada aqui no blog da Global nós falamos sobre Mais de 100 Histórias Maravilhosas e as narrativas fantásticas de Marina Colasanti. Hoje, no entanto, vamos explorar um pouco mais sobre outra faceta da autora. Mais precisamente, uma que está presente no livro Eu, Sozinha. Sua primeira obra publicada, o livro chegou pela primeira vez em 1968, quando a autora trabalhava como jornalista no Jornal do Brasil e levava uma vida solitária no Rio de Janeiro. A obra foi escolhida por dois motivos: o primeiro deles é porque a autora faz um relato sensível e ao mesmo tempo pertinente sobre a solidão; segundo porque, mesmo com essas qualidades apontadas antes, o livro antes é pautado na realidade diária e rotineira de uma mulher na década de 1960. Esses fatores, mais o fato de que Eu, Sozinha também brinca com a estrutura (algo que Colasanti sempre gostou de fazer), fazem com que o livro se destaque no catálogo da editora. 

Como o sentimento da solidão e sua essência, a narrativa de Colasanti aqui mistura relatos do passado e presente, criando algo que não é necessariamente linear, mas sim que tem altos e baixos, picos e calmaria. Em certos capítulos, Marina explora os tipos de sentimentos que chegam em um combo com a solidão e o isolamento. É comum vê-la descrevendo o ambiente ao seu redor e achando companhia e conforto nas coisas. Ela troca uma luz no seu local de trabalho, descreve tapetes, cortinas, os banquinhos que estão ali. O ambiente é, de certa forma, seu companheiro. 

Já em outros capítulos, Marina descreve um pouco sobre a rotina de seus vizinhos: o que eles jantam, quando eles chegam em casa. Assim como a maioria das pessoas solitárias, parece que ela está assistindo tudo por uma janela pequena, espectadora de uma vida diferente, que acontece no mundo real. Não é atoa que a capa da edição da Global tem duas janelas pequenas presentes.

Como a solidão não necessariamente se encaixa em uma caixinha de fórmula, ela descreve sua infância e o modo que sua família mudou, fugindo de guerras, também como uma forma de se sentir isolada. Marina nasceu na África, viveu na Itália e só aos 10 anos se estabeleceu no Brasil. Com memórias que transitam entre vários lugares, a solidão de ter nascido em um lugar, e não necessariamente lembrar do seu país de origem, é real e palpável. “Da África não me lembro quase nada”, pontua. É a desconexão entre o país que ela vive hoje, e o que ela nasceu. 

Mais do que isso, ao longo da narrativa de Eu, Sozinha Marina demonstra um conhecimento interessante sobre o seu sentimento com a solidão. Em entrevistas, a autora já disse que queria falar sobre a condição humana com esse sentimento – que nunca realmente deixa a todos nós. Nascemos e morremos sozinhos. Às vezes, mesmo que rodeamos de pessoas, não nos sentimos “pertencentes” a algo. Algumas pessoas passam o tempo inteiro correndo atrás de preencher essa forma de “vazio”, já outras abraçam o mesmo. Com uma escrita real e ao mesmo tempo sensível, Marina se mostra bem autoconsciente de tudo ao seu redor, inclusive seus próprios sentimentos sejam eles sobre a solidão em si uma ramificação da mesma, como podemos ver em dois trechos: 

“Tenho, de mim mesma, uma ideia preconcebida que alia o espírito aos traços fisionômicos e ao desejo de uma outra beleza. Criei, assim, uma pessoa invisível, mais real, para mim, do que para qualquer outra. Dessa pessoa que eu gosto. E, talvez por saber-me sua única amiga, ela me enternece profundamente.” 

 

“Nada acontece de visível a não ser eu própria.” 

Apesar de ser um livro publicado originalmente em 1968, Eu, Sozinha se faz mais pertinente do que nunca. Não apenas por causa da época em que estamos vivendo (como apontado anteriormente pelo texto), mas pela forma que a autora descreve o sentimento, sempre de forma tão atemporal e sensível.