Urubuquaquá, no Pinhém é uma jornada exploratória

João Guimarães Rosa sempre foi um autor com uma visão bem clara sobre o que queria dentro de suas narrativas. “Quando escrevo, não penso em literatura: penso em coisas vivas”, ele disse certa vez. Esse pensamento bate perfeitamente com tudo que estudamos e falamos sobre o autor até agora. Ele gosta, por exemplo, da natureza, de animais e de todas as coisas que cercam seus personagens. Isso não apenas é um elemento forte nos seus livros, mas também algo que move a narrativa em si para frente, uma parte fundamental da trama. Se fosse ao contrário, talvez nada funcionaria tão bem. 

Dentro das páginas de “Urubuquaquá, no Pinhém”, publicado em junho pela Global, o autor acha uma resposta à sua necessidade de explorar coisas vivas. No livro, que tem 2 contos e uma novela, todos os personagens entram em uma espécie de jornada. Essa jornada é ambientada pela natureza, que aqui ganha características que reforçam sua vivacidade. 

No conto “O Recado do Morro”, por exemplo, o Morro da Graça é uma espécie de transmissor e receptor do recado citado no título. Ele é o personagem principal da história, ganhando até mesmo características humanas. Guimarães Rosa o descreve como “solitário, escaleno e escuro”, ao mesmo tempo que cria uma série de metáforas e simbolismos dentro da sua própria trama. As duas coisas andam em paralelo uma com a outra. No final, é possível ver exatamente quando estes dois elementos se juntam para formar o clímax da história. 

Nas histórias que analisamos anteriormente, como “Manuelzão e Miguilim” e “Sagarana”, os personagens também saem em suas respectivas jornadas e, às vezes, elas envolvem viagens para outros lugares. Mas isso são apenas pontos na narrativa e tudo acontece de forma mais instrospectiva. Ou seja, dentro dos pensamentos e sentimentos dos personagens. Aqui, no entanto, a jornada em si é o ponto de partida. Ela é o começo, o meio e o fim e leva efetivamente os personagens para um lugar diferente do que quando eles começaram. É uma trajetória mais dinâmica, pois muda muito a forma como os personagens veem eles mesmos e as coisas ao seu redor, mas também é mais exploratória e ativa. A jornada é o desenvolvimento. 

Apesar de ter algumas das histórias mais famosas de Guimarães (como “O Recado do Morro”, que acabou de ser publicado pela Global em um livro separado), “Urubuquaquá, no Pinhém” não é a obra ideal para começar a ler o autor. Este é um livro para, principalmente, quando o leitor estiver com certa familiaridade com a forma como ele conduz suas histórias, se preparando assim para enfrentar o seu projeto linguístico tão específico.