Quando o homem é o lobo da mulher

EmMCr_Marina Colasanti_capa.indd 1986, Marina Colasanti escreveu uma crônica que lamentavelmente segue atualíssima. Há neste 2016 os números, muito altos, crescentes, de violências cometidas contra mulheres em todo o país. E no coração de cada único número, um sofrimento indizível, um trauma indesculpável, uma vivência de horror irreparável: veja números, mas leia humanos. A escritora compara os homens estupradores a lobos, mas “um lobo é fácil de reconhecer, mesmo entre outros animais“. O estuprador está misturado na multidão, ou bem menos anônimo que isso, bem mais próximo. E até sorri.

Neste texto, parte do livro Melhores Crônicas Marina Colasanti (Global Editora), com seleção de Marisa Lajolo, ela enfrentou além do lobo, um  medo coletivo de falar do lobo. Um medo que trinta anos depois de escrito parece menor (não o problema). Há contextos e estatísticas que mudaram um pouco. Pouco mesmo. O sentimento é vivo e precisa ser lido.

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QUANDO O HOMEM É O LOBO DA MULHER

Minha filha está com medo. Minha filha tem vinte anos e está com medo dos vigias, dos porteiros, dos choferes de táxi, dos entregadores, dos consertadores de eletrodomésticos. Minha filha está com medo de todos os homens porque aos olhos de uma mulher todos os homens podem conter o homem que, escondido sob a aparência de normalidade, transforma-se de repente naquele que a agride, a estupra e a joga vazada em sangue no fundo de um matagal.

Minha filha não foi criada para ter medo. Mas agora que o tem, não me cabe tranquilizá-la. Não me cabe dizer-lhe que nem todos os homens são aquele homem, porque eu própria não sei que homem é aquele e se pretende, algum dia, bater à nossa porta. E não sabendo qual é o rosto daquele homem, não posso dizer à minha filha para ter medo só dele, e apascentar-se tranquila junto aos outros, porque nada me garante que ele não esteja entre esses, e deles não seja o mais probo.

Uma ovelha, quando vê aproximar-se um lobo, não hesita. Ela sabe que o lobo é seu inimigo e quererá cravar-lhe os dentes no pescoço. Não é esse ou aquele lobo que ela tem que temer. Mas todos, indistintamente. E um lobo é fácil de reconhecer, mesmo entre outros animais.

Mas um estuprador não é um lobo. É um homem que sorri como todos, e que até o momento preciso em que puxa uma faca e a encosta no peito de uma mulher é um bom pai de família, ou um querido filho, amigo de seus amigos. Um estuprador não se reconhece de longe. Nem de perto. E muito menos quando está no meio dos outros que, embora sendo homens como ele, não são da sua espécie.

Mas as mulheres são todas ovelhas. Caminha a mulher na estrada, à noite, voltando da casa da comadre. Os carros passam em velocidade, iluminando-a de costas. Ela anda aproveitando a luz desses carros para enxergar na escuridão. Não tem medo. Já fez esse trajeto muitas vezes, e nada aconteceu. Mas, se uma luz a banhar por trás e não seguir caminho, se ela ouvir os pneus parando lentamente a seu lado, o coração disparará em pânico, e ela terá por um instante a certeza de ter sido escolhida.

De costas, no escuro. Nada disso importa. Toda mulher é uma ovelha. E para o lobo uma ovelha é igual a outra ovelha.

Em Nova York, de cada dez mulheres que moram sozinhas, cinco serão estupradas. As dez jogam com as leis da probabilidade. Só cinco ganham. Em Nova York ser mulher é mais perigoso do que fazer roleta-russa, porque só há uma probabilidade de a bala encontrar a têmpora, contra cinco de o tambor estar vazio.

Aqui não vivemos por estatísticas. Minha filha precisa ir ao subúrbio e está com medo. O subúrbio, lhe digo, não é mais perigoso que os outros lugares; mas quando estiver em casa sozinha, tranque bem a porta, e não abra para estranhos. E quem garante que o estuprador seja um estranho?

Em geral, não é. A maioria dos casos de estupro acontece com homens conhecidos, frequentadores da família, pessoas de bem, amigos e parentes. Esses não cravam a faca no peito da mulher, não a jogam morta nos matos ou águas. Esses não têm medo do reconhecimento, da denúncia. Porque é dito e explicado que se denúncia houver eles estuprarão aquela mulher uma segunda e uma terceira vez, com suas palavras, em público, dizendo que foram seduzidos, provocados, e descrevendo em detalhes como aquela mulher os arrastou ao gesto insensato.

Toda mulher sabe que, embora bebendo rio abaixo, está sempre sujeita a poluir a água em cuja cabeceira o lobo bebe. E de nada adiantará argumentar, porque desde sempre os lobos são donos do rio, e foram eles que estabeleceram suas leis. O rio, nesta fábula, não pertence à floresta.

Minha filha está com medo. E, quando sai à noite, prefiro que não volte de táxi, porque táxi é perigoso, não gosto que volte de ônibus, porque há muito perigo, e não lhe dou um carro, porque carros entram em garagens, e garagens também podem ser muito perigosas. Então ela vai com seu medo, e eu fico com o meu, rezando ambas para que as leis da probabilidade a favoreçam, e não se acenda o olhar de lobo por trás de uma máscara de homem.