Primeiras Estórias: um estudo sobre situações inusitadas

“Esta é a estória. Ia um menino, com os tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho.” 

A primeira frase de “Primeiras Estórias” (citada acima) diz bastante do que será feita a leitura do livro de João Guimarães Rosa, publicado pela primeira vez em 1962 e que reúne 21 contos diferentes. 

Tanto “Sagarana” quanto “Manuelzão e Miguilim” – que já foram explorados pelo blog da Global – narram situações que existem dentro de um contexto bem específico. A história de Miguilim, por exemplo, é sobre o seu amadurecimento em meio a sua família complicada. Já em o “Burrinho Pedrês”, um dos contos mais populares do autor, e o primeiro do livro “Sagarana” em si, lemos sobre várias paisagens diferentes, mas que todas compõem a jornada do burrinho e seus companheiros vaqueiros. Existe sempre, de certa forma, uma consistência que liga a história do começo ao fim.  

Em “Primeiras Estórias”, no entanto, os eventos são explorados de forma inusitada. Isto é, não existe uma “lógica” que liga uma coisa na hora, apenas personagens que vão experimentando as coisas de maneiras diferentes. Ao ler esta obra, é importante adotar uma postura diferente: deixar um pouco o conceito “linear” da narrativa de lado, e tentar focar nos sentimentos que a leitura proporciona, o que a leitura está tentando transmitir sobre os personagens com aquele estilo narrativo.  

Voltando à frase citada no começo, é possível traçar um paralelo direto deste primeiro momento com o resto da leitura do conto. “As Margens da Alegria”, como ficou intitulado o conto, acompanha um menino em três momentos distintos: uma viagem que ele faz de avião, quando descobre a natureza e, por fim, quando tem que matar um Peru e não consegue fazê-lo. Estruturalmente falando, esses três momentos são completamente distintos, cujo único elemento a ligá-los são os sentimentos do protagonista. Ao viajar de avião e descobrir a natureza, ele sente alegria; já com o Peru, sente angústia, culpa e até mesmo um pouco de tristeza. Esses pequenos momentos se sobrepõem de forma rápida e formam um ciclo: a descoberta de um sentimento tão genuíno quanto a alegria, e a morte da inocência que vem em seguida. Isso tudo é novidade para o protagonista, e isso fica impresso de forma clara nas páginas. 

“Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho”, ele diz. 

É interessante perceber como, mesmo em uma obra relativamente mais simples, Guimarães Rosa ainda continua com uma percepção certeira de assuntos como memória e explora muito bem as mudanças que acontecem ao redor dos personagens.  Neste primeiro conto, a “memória” da viagem de avião, da descoberta da natureza e da primeira morte que o protagonista teve que realizar, tem um papel fundamental na hora de construir a ambientação narrativa e a mensagem da trama que quer contar.

Em “Famigerado”, o segundo conto do livro, o autor também demonstra um controle profundo sobre sua intenção com a obra. “Foi de incerta feita – o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça?”, a narração diz. Aqui, o conto retoma a trabalhar o conceito da palavra e das mudanças ao retratar um personagem, Jagunço Damázio, que vai atrás de uma opinião para saber o que, afinal, significava o termo “famigerado”, que ouviu de um governante. Com uma postura hostil e dura, ele descobre que não era uma ofensa como pensava, mas sim uma expressão amena, algo que muda sua forma de lidar com o narrador. 

Ao mesmo tempo que é uma história que se destaca como relativamente simples, quase uma curta crônica sobre um momento corriqueiro, o conto também fala de forma clara sobre a importância da palavra e mudanças sociais, tudo isso com poucas palavras e uma trama que não se desenrola para mais de 4 páginas. 

Com uma linguagem mais simples, mas que ainda sim tem elementos do estilo único do autor, e contos que são curtos e rápidos de absorver, “Primeiras Estórias” é a obra perfeita para começar a explorar o universo de Guimarães Rosa. 

Apesar de não ter sido o primeiro a ser publicado pela Global, o livro introduz personagens de forma ágil porém interessante, acostumando o leitor para o fluxo da narração que pode ser vista em livros como “Sagarana” e “Manuelzão e Miguilim”, e ao mesmo tempo explora um pouco mais sobre o viés regionalista bem específico do autor. 

Nem sempre conscientes dos acontecimentos ao seu redor, mas sempre dos seus sentimentos no geral, os personagens tiram algo “extraordinário” de uma situação inusitada. Ou pelo menos, o autor tira isso e transpõe isso nas páginas.

Como diz no primeiro conto: “A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária”