Poetas de novembro – Cecília puxa a fila

Cecília Meireles nasceu e morreu no mês de novembro – dia 7, em 1901; dia 9, em 1964. Uma das mais importantes poetas de língua portuguesa em todos os tempos, que atualmente tem sua obra completa publicada pela Global Editora, encabeça as comemorações dos poetas de novembro da coleção Melhores Poemas, que ainda conta com Ivan Junqueira, Cruz e Souza, Lindolf Bell e Sosígenes Costa. Celebremos, lendo.

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! Tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em  7 de novembro de 1901

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Rosto

Teu rosto em fuga na vidraça
é uma gota que escorre devagar,
tão devagar que o tempo, avaro,
sequer ensaia um magro passo.
Uma gota que cai, sem lastro,
leve como a asa de um pássaro,
mas tão repleta de presságios
que sinto o fio de uma adaga
rasgar-me a carne das ilhargas.
Por que, às vésperas do nada,
a alma desperta, arrebatada?

Ivan Junqueira nasceu no Rio de Janeiro, em 3 de novembro de 1934

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Asas abertas

As asas da minh’alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
abrigar-te de frios no meu ninho
com as tuas asas trêmular, incertas.

Tu’alma lembra vastidões desertas
onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh’alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.

Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
que vai tdo florindo e fecundando
e sobre aos céus como sagrado incenso.

Eis a minh’alma, as asas palpitando,
como a saudade de agitado lenço
o segredo dos longes procurando…

Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis, em 24 de novembro de 1861

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Ruaugusta

Vai. Inaugura-te.
Sobe a via máxima.

Pela tarde, nas vitrinas,
a via láctea dos luminosos.

RuaAugustaruAugustarua: Via-Sacra.
jaz
bossa
vozz
velozz
zummmssss
um vento
ventou na ladeira.

Caminhar, caminhar, caminhar:
Augusta-Angusta.

                                      Bares.
Becos.
Bacos.
Bandos.
Barbas.
Bundas
Botas.

                   Sobe a rua, colhe a lua.
Sobe a veia.

                                      Sobe a via.
Sobe a vida.

Lindolf Bell nasceu em Timbó (SC), em 2 de novembro de 1938

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Emendando um soneto

Eu matei meu amor e foi bom que o matasse
Meu amor era um lírio e eu não gosto de lírio.
Se ele fosse a madona, eu talvez me casasse
para o amor me adorar e eu gozar-lhe o delírio.

Eu matei meu amor sem beijá-lo na face.
Meu amor era um lírio e eu não gosto de lírio.
Se ele fosse o meu anjo, eu talvez me casasse
para vê-lo fumando e descendo do empíreo.

Ninguém sabe quem foi meu amor que matei.
Era o anjo da morte? Era a filha de um rei?
Este crime é um mistério… E é bonito o mistério.

Este segredo azul pus num cofre sidéreo,
mas em suma eu fiz bem em matar meu amor,
porquanto ele era um lírio e eu não sou beija-flor.

Sosígenes Costa nasceu em Belmonte (Bahia), em 11 de novembro de 1901

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