Poetas de dezembro

Bahia, Rio e Lisboa. Os poetas aniversariantes de dezembro na coleção Melhores Poemas da Global Editora representam a elasticidade da língua portuguesa, em diferentes formas de expressão, em diferentes tempos.

Tangos

Voavam dos discos negros
e velozes.

                                               Voavam
da radiola em que dávamos corda com uma manivela
prateada.

                            Voavam
na sala
saíam
pela janela
enchendo a rua de vozes
trágicas.

A noite esfriava lentamente.

                                               Os discos
voltavam
às suas capas de
papel.

                            Em mim,
recolhiam-se as vozes e os
bandoneons
que
para sempre
juntaram à minha vida suas almas
dilaceradas.

Ruy Espinheira Filho nasceu em Salvador, BA, em 12 de dezembro de 1942.

***

Nel mezzo del camin…

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tu mão; a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volta a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 1865.

***

 O espectro

Anda um triste fantasma atrás de mim
Segue-me os passos sempre! Aonde eu for,
Lá vai comigo… E é sempre, sempre assim
Como um fiel cão seguindo o seu Senhor!

Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!

Ri sempre quando eu choro, e se me deito,
Lá vai ele deitar-se ao pé do leito,
Embora eu lhe suplique: “Faz-me a graça

De me deixares nessa hora ser feliz!
Deixa-me em paz!…” Mas ele, sempre diz:
“Não te posso deixar, sou a Desgraça!”

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, Portugal, em 8 de dezembro de 1894.

***

Tercetos

Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos.

E bem que o descantei bastantemente,
canto segunda vez na minha lira
o mesmo assunto, em plectro diferente.

Já sinto que me inflama e que me inspira
Talia, que musa é da minha guarda,
des que Apolo mandou, que me assitira.

Arda Baiona, e todo o mundo arda,
que a quem de profissão falta à verdade,
nunca a dominga das verdades tarda.

Nenhum tempo excetua a cristandade
ao pobre pegureiro do Parnaso
para falar em sua liberdade.

A narração há de igualar o caso,
e se talvez o caso não iguala,
não tenham por poeta o que é Pegaso.

De que pode servir falar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente,
Sempre se há de sentir o que se fala.

Que homem pode haver tão paciente,
que vendo o triste estado da Bahia
não chore, não suspire, e não lamente?

Isto faz a discreta fantesia:
discorre em um, e outro desconcerto,
condena o roubo, increpa a hipocrisia.

O néscio, o ignorante, o inexperto,
que não ele o bem, nem o mal reprova,
por tudo passa deslumbrado, e incerto.

E quando vê talvez na doce trova
louvado o bem, e o mal vituperado,
a tudo faz focinho, e nada aprova.

Diz logo prudentaço, e repousado:
Fulano é um satírico, é um louco,
de língua má, de coração danado.

Néscio! Se disso entendes nada ou pouco,
como mofas com riso, e algazarras,
musas, que estimo achar quando as invoco?

Se souberas falar, também falaras;
também satirizaras, se souberas,
e se foras poeta, poetizaras!

A ignorância dos homens destas eras
sisudos faz ser uns, outros prudentes,
que a mudez canoniza bestas-feras.

Há bons por não poder ser insolentes;
outros há comedidos de medrosos;
muitos não mordem porque não têm dentes.

Quantos há que os telhados têm vidrosos,
e deixam de atirar sua pedrada
de sua mesma telha receosos.

ũa só natureza nos foi dada,
não criou Deus os naturais diversos,
um só Adão formou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,
só nos distingue o vício, e a virtude,
de que uns são comensais, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom! e haja saúde.

Gregório de Matos nasceu na cidade da Bahia, em 3 de dezembro de 1636.

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