Marina Colasanti: “Eu uso o fantástico como metáfora de sentimentos e inquietações que povoam a realidade”

Durante a entrevista com a Global, Marina Colasanti diz que não é “tão vaidosa a ponto de considerar meus livros como clássicos”. Mesmo assim, é possível dizer que suas obras mudaram a literatura brasileira, principalmente pela forma como ela brinca e explora a estrutura das mesmas.

Marina, completa 84 anos neste domingo (26), tem livros como Mais de 100 Histórias Maravilhosas, Eu, Sozinha e diversas histórias infantis publicadas pela Global. Em entrevista para a editora, a autora fala sobre sua carreira e seu legado como uma das maiores escritoras brasileiras, além de explorar a estrutura presente nas suas narrativas e o cenário político e social do Brasil.

Seus livros são clássicos da literatura brasileira e ditaram muito do que é feito hoje. E você sempre gostou muito de explorar estruturas diferentes. Existe algum arrependimento? Ou algum momento que você pensou ‘bom, estou no caminho certo?’

Não sou tão vaidosa a ponto de considerar meus livros como clássicos. Mas é verdade que sempre gostei de estruturas diferentes. Não tenho nenhum arrependimento. Demoro muito a considerar um livro como pronto. Depois, não me arrependi de nenhum deles. “Estou no caminho certo” penso enquanto estou escrevendo porque cada livro tem seus próprios caminhos, não quando dou o livro por encerrado.

 Você sempre usou e procurar explorar novos caminhos para sua escrita, sempre usando o desafio como uma motivação. Qual foi a parte que você considerou mais “desafiadora?”

Chegar a uma linguagem que fosse minha.

 Falando um pouco da estrutura ainda: Eu, Sozinha, por exemplo, é um livro que fala, como o próprio nome aponta, sobre solidão. E hoje nós estamos vivendo no tempo mais solitário possível, de diversas formas. Acho que é justo dizer que o sentimento se múltipla, cresce e assusta. O que você escreveu naquelas páginas, ressoa demais com a nossa rotina hoje. Você concorda com isso? 

Ressoa com todos os tempos, não apenas com nosso tempo de pandemia. O ser humano nasce e morre sozinho. E sozinho toma a maior parte de suas decisões. A solidão é um sentimento comum a todos. Entretanto, na modernidade as mega cidades expandiram a solidão. Há muito mais gente se sentindo sozinho nas mega, do que havia nos povoados ou em pequenas cidades.

 Foi um livro estruturalmente difícil de escrever? 

Foi mal entendido, considerado como um livro de crônicas. Eu montei o livro obedecendo a um princípio de alternância: os capítulos ímpares seriam autobiográficos avançando cronologicamente, enquanto os pares seria flashes de solidão do presente. Mas é provável que não tenha deixado minha intenção suficientemente clara.

Algumas de suas narrativas sempre tiveram muito forte o elemento fantástico. Como você vê este cenário específico da literatura brasileira hoje? E enquanto estamos no assunto, da literatura infanto-juvenil? 

A literatura destinada ao público adulto está apostando mais na realidade. Na literatura infanto-juvenil os animais sempre falaram com os humanos, a metamorfose é uma constante, e tudo isso pertence àquilo que consideramos fantástico. Talvez os autores considerem que os pequenos e os jovens estão mais próximos do imaginário. Eu uso o fantástico como metáfora de sentimentos e inquietações que povoam a realidade

Da literatura infantil até a adulta, seus livros tem um olhar sensível, que acrescenta muita profundidade para qualquer história. Esses elementos surgiram da mistura de memória e imersão das condições humanas, ou de uma junção de outros elementos? Como você descreveria o seu processo de criação das narrativas? 

Todos os elementos contam quando se quer narrar. Memória e vivência são indispensáveis para contar uma história. Sempre prestei uma atenção danada ao que me cerca, e o que vejo passa a fazer parte de mim. Isso, desde a infância, o que significa que aos 84 anos tenho um repertório bem vasto! Meu processo de criação é um para contos, minicontos, poesia, contos infantis, e é outro quando escrevo contos maravilhosos, mais conhecidos como contos de fadas. No primeiro sou crítica, sou política, faço muita pesquisa. No segundo trabalho só com a emoção, me entrego à história como se descesse um rio em um barco. E obedeço ao que a história me sussurra, sem questioná-la.

Uma vez vi uma entrevista aonde você chamou seu processo de ilustração de “esquizofrênico”. Ainda é assim para você? 

Chamei de esquizofrênico, porque não penso escrita e ilustração ao mesmo tempo – como faz a quase totalidade dos autores-ilustradores – e não as enfrento do mesmo modo. Quando escrevo preciso ter visão circular. E escolher só os elementos que, como vigas, sustentarão a história. Quando ilustro não preciso da visão circular, preciso de foco em equilíbrio, foco em luz e sombra -que conferem drama –, e cuidado para não repetir na ilustração o que já está no texto.

Como uma pessoa especialista em conto de fadas, você acha que o mundo hoje, na situação caótica que está, precisa mais do que nunca dessas narrativas?

O mundo sempre precisou dessas narrativas e de seu conteúdo simbólico. Não fosse assim, não teriam atravessado tantos séculos e chegado até nós.

Existe um grande problema nas escolas hoje, sendo que alguns pais discutem e rebatem qualquer assunto mais complexo que os professores tentam abordar em aula como uma “doutrinação”. E a literatura, de certa forma, está no centro destas discussões. Como autora de literatura infanto-juvenil, como você vê essas discussões?

Existe uma enorme diferença entre doutrinação e formação. A primeira é, em sua essência, manipuladora. Como a palavra diz, quer incutir uma doutrina, e só aquela. A formação busca o contrário, abrir a mente para a pluralidade. Mas nem frequento escolas, nem penso na reação dos pais quando estou escrevendo para crianças. Falo para elas e para mais ninguém.

Uma vez vi que você se referiu a si mesma como uma “feminista histórica”. Você pode, por favor, elaborar um pouco sobre esse conceito e como ele se aplica no contexto da sua vida? 

Sou feminista histórica porque durante 4 anos fiz parte do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criado por Ruth Escobar, e durante 20 anos batalhei por estes direitos como editora de Comportamento da revista Nova, e porque publiquei 4 livros sobre as mulheres no trabalho, no amor, no estudo, e seus direitos jurídicos e sociais.

O que vem a seguir para você? 

Público ao fim de setembro um livro que mistura duas biografias – da minha tia avô Gabriella Besanzoni e de Henrique Lage com quem ela se casou em1925- e relata a vida doméstica que se vivia na mansão do Parque Lage, a compra do Parque por Roberto Marinho e a desapropriação efetuada por Carlos Lacerda. E tenho, quase pronto, mais um livro de contos maravilhosos.