Cascudo pergunta: você sabe usar o lenço?

O Dicionário do Folclore Brasileiro é a casa da curiosidade. Por exemplo, nele se encontram palavras e termos muito diferentes como ‘Cambica’ ou ‘Cambirera’, mas na página logo ao lado há o verbete ‘Cama de Casal’, que teoricamente todo mundo sabe bem o que é. Aí mora a delícia desse livraço: Câmara Cascudo explica a origem do objeto e nos apresenta toda a significação em torno dele, construída como a própria cultura de um povo, do acúmulo de influências ancestrais. “O leito do casal mantém as tradições do culto doméstico romano (…) Quando o homem passava a nova núpcias, mandava fazer um novo lectus genialis. O uso do mesmo leito era crime atroz (…) No Brasil, a praxe consuetudinária manda arranjá-lo por mulher casada e sabidamente feliz no matrimônio. Ninguém pode sentar-se nem depor objetos sobre o leito. (…) Não pode ser maculado com a presença de uma mulher que não seja a esposa. É o derradeiro móvel vendido na época de asfixia financeira. Vender cama é denúncia de absoluto desespero econômico”.

Tem brincadeiras de criança, costumes, superstições, pratos tradicionais, tudo que fez o dia a dia das pessoas no Brasil, desde os primeiros registros possíveis. É um mergulho no que nós fomos e somos. Abaixo, leia mais um exemplo de verbete, sobre os singelos lenços. Quanto significado já teve o uso de um lenço. Nem os emoticons na internet dizem tanto:

Lenço. Não se deve dar lenço de presente, porque chama lágrimas. Convém trocá-lo. A pessoa presenteada deverá dar outro presente, imediato, ou o pagamento figurado, com uma pequenina moeda, outrora um vintém. Para o Norte e Nordeste do Brasil o lenço não figura nas danças nem há registro de que aparecesse nos bailes velhos, como no Rio Grande do Sul, por influência do Uruguai e Argentina e estes de Espanha. Mas dança com meneios de lenço não é figura exclusivamente espanhola e conhecem esse tipo na França, Bélgica, Hungria e Tchecoslováquia. Em Portugal a oferta de lenço é tradicional assim como a indústria de lenços, bordados nas pontas, com estrelas, pombas, raminhos, especialmente corações, com frases amorosas e declaratórias de afeto: Sempre tua; Fiel amor; Sinceridade; Amor eterno; Amizade; Te esperarei sempre, etc. Os lencinhos bordados ou franjados de rendas de almofadas eram presentes famosos entre namorados ou recém-casados, lembrança das amigas da noiva. A nova senhora devia morder o lenço numa extremidade antes de usá-lo para não esfriar as relações com quem a presenteara. O lenço também era objeto de código na linguagem dos sinais amorosos. No bolso do paletó, as pontas para cima, firmeza; para baixo, dobradas, amor ausente ou desconfiança, amargura; sem mostrar uma só ponta, rompimento; com uma flor natural entre as pontas, comprometido, noivo, amor fiel e correspondido; tirar o lenço e metê-lo no bolso duma vez, disponível, sem compromisso, livre para amar; dobrar o lenço à vista da criatura interessada, quero falar-te ou espere carta; abrir todo o lenço, cuidado, cautela, prudência. Hoje não há necessidade de dar trabalho ao lenço.