Rubens Caribé: “O Burrinho Pedrês” é o conto sobre heroísmo de Sete-de-Ouros

Por Cibele Cardoso

“O Burrinho Pedrês” é a narrativa que abre um clássico da literatura brasileira e também de Guimarães Rosa, o sempre lembrado Sagarana. Nessa história, o leitor acompanha a jornada de um grupo de boiadeiros que está responsável por tocar uma extensa boiada, que sai do sítio do Major Saulo até o arraial, e em determinado momento um animal considerado fragilizado e sem “serventia” é figura essencial para o sucesso da missão. E essa peça chave é o burro, já idoso, ‘Sete-de-Ouros’, que trava sua derradeira missão no sertão da Paraíba.

Para narrar esse conto emocionante e com uma bela lição a ser passada a quem tem contato com ela, a Tocalivros, parceira da Global Editora, convidou o ator e cantor Rubens Caribé, que já conhecia a obra de Guimarães e mantém um afeto especial, o qual ele explica nesta entrevista exclusiva ao Blog da Global.

Vale ressaltar que a editora tem cada vez mais incentivado a disponibilização de audiolivros, já que além de facilitar o acesso às obras de grandes autores da literatura brasileira, e ser uma tendência entre os amantes da leitura, o formato também é inclusivo. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cegueira afeta 39 milhões de pessoas no mundo e 246 milhões sofrem de perda moderada ou severa da visão. Tais dados foram compilados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e constam no documento “As Condições da Saúde Ocular no Brasil 2019”, elaborado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

Em entrevista por Whatsapp, devido à Covid-19 e à necessidade do distanciamento social, Rubens Caribé concedeu entrevista à Global Editora e contou como foi realizar o trabalho de narração de “O Burrinho Pedrês”. O entrevistado também comentou sobre assuntos pessoais que fazem ligação com o conto de Guimarães, entre outras curiosidades.

Rubens Caribé
Afetividade, técnica e influência paterna são agregadas na narração de Rubens Caribé

Global Editora – Como surgiu o convite para narrar o conto “O Burrinho Pedrês”, de Guimarães Rosa?

Rubens Caribé: O convite partiu da própria plataforma Tocalivros. Quando surgiu o projeto de narrar essa edição lançada como livro individual, com a Global Editora, logo houve o contato comigo, pois sabiam da história com meu pai, que tinha uma certa fixação por “Sagarana”, em especial pelo conto “O Burrinho Pedrês”. Além disso, já havia narrado outros audiolivros da editora.

Há o fato também de que meu pai havia falecido há um ano, então ler esse conto foi uma experiência única.

 

Global Editora – Você já conhecia o conto?

Rubens Caribé: Como havia citado anteriormente, já conhecia o conto porque meu pai tinha esse gosto pelo livro Sagarana, inclusive ele dizia “Sagarana é melhor que Grande Sertão Veredas” (risos). Acredito que essa opinião dele vá além da questão de conhecimento profundo da literatura. Existe uma maior ligação pela época e vivência pessoal dele quando conheceu a obra, então o marcou para sempre.

Por essa predileção afetiva, sim, não só conhecia o conto, como li várias vezes. Foi muito significativo fazer esse registro com uma excelente qualidade, pois a edição da Global tem um texto maravilhoso, um projeto bem estruturado e produzido realmente com dedicação.

 

 

Global Editora – Quais as principais semelhanças e diferenças entre narrar e atuar?

Rubens Caribé: Em essência, as duas atividades implicam na mesma tarefa de ligar-se ao sentido do texto no ato da emissão. Na narração é importante se conectar ao sentido do que se está dizendo o conto. Precisa se atentar à história em diferentes níveis, para capturar o objetivo ou proposta do que está sendo dito, o ponto racional, afetivo, emocional e intuitivo ao que se refere ao texto.

Por outro lado, a atuação acontece por meio do corpo inteiro. Acredito que essa seja principal diferença entre narrar e atuar. Na dramaturgia, você precisa trabalhar com seu corpo inteiro em um espaço livre, com gestos que chegam às extremidades físicas, tem uma integralidade que envolve a atuação.

Já na narração é preciso ficar imóvel porque, a cada “escorregadinha” que você faça na cadeira ou movimento do corpo e de objetos, pode-se ocorrer interferências na captação da voz e na qualidade do som. Então, ao longo do processo e experiência como narrador, fui aperfeiçoando esses detalhes e treinei uma certa imobilidade.

 

Global Editora – Vimos que você é um ator que já participou em musical e que também tem especialização em canto. Você acredita que essas experiências tenham auxiliado de alguma forma em seu trabalho como narrador de histórias? Poderia citar pelo menos um motivo ou carcaterística?

Rubens Caribé: Cantar influencia todo meu trabalho vocal, como ator e narrador, porque a compreensão da musicalidade envolve dinâmicas, ritmos, diferenças de frequências e todos esses recursos que estão na voz, os quais o narrador utiliza.

Coincidentemente, o próprio João Guimarães Rosa, em suas obras, faz citações de canções populares, como em “A festa de Manoelzão” e “A hora e vez de Augusto Matraga”. Nessa parte eu e a produção da Tocalivros improvisamos livremente, dentro da maneira que a direção propunha, selecionamos cantigas populares no mesmo estilo e fizemos uma variação melódica, que propus alí no improviso. Então, minha experiência musical auxiliou nesse sentido e foi agregador.

 

Global Editora – Antes de iniciar a narração é necessário algum preparo?

Rubens Caribé: Sem dúvidas há uma preparação. Faço aquecimento vocal para narrar, locutar e atuar, ou seja, em todos os meus trabalhos. Essa prática é importante porque é como aquecer instrumentos, buscando a amplitude do gesto vocal, intensidade e vigor necessário, para que esteja preparado para o momento da cena e quando chegar o átimo consiga realizar a abertura vocal necessária.

 

Global Editora – O que achou da história ao final da narração? Poderia nos conceder um comentário a respeito do conto?

Rubens Caribé: “O Burrinho Pedrês” é o conto do dia de herói desse animal, na fazenda do Major Saulo, cujo capataz é encarregado de arreá-lo para seguir em comitiva, e enviar os cavalos nos trens. Pode-se dizer que é a missão derradeira de um burrinho sertanejo. E o olhar que Rosa derrama sobre a natureza, agrega uma perspectiva de índio (risos), ele diz que escreve com a língua nascente, a linguagem indígena, então lança esse enfitar de índio, que se enxerga como irmão da natureza.

Portanto, os relevos, os rios, as matas, as vegetações e todos os bichos agregam um admirar genuíno de quem vive naquela terra descrita no conto. Guimarães escreve com a língua nascente e indígena. Ao mesmo tempo, parece que o autor humaniza o burrinho e os demais animais, em contrapartida animaliza aqueles homens. O discurso vira o relevo, mas isso no sentido metafórico do uso da linguagem.

Sem dúvida, Guimarães Rosa acrescenta sentimentos, como o arrependimento, ímpetos, manias, amarras e vícios dos animais, assim como podemos enxergá-los igualmente nos homens. A figura do Burrinho, então, é um misto de fragilidade, força e resiliência. O animal é velho, no entanto é escolhido para seguir com os vaqueiros naquela manhã de chuva, levando uma última boiada para ser embarcada nos trens.

Vale ressaltar que o autor também apresenta a questão da profunda burrice e da profunda sabedoria. Guimarães despeja sobre a obra essas dualidades na figura do burrinho ‘Sete-de-Ouros’ que, já velho, vive o seu dia de herói.

 

Global Editora – Por último, mas não menos importante, para você, qual a importância dos audiobooks?

Rubens Caribé: Acho maravilhoso que haja os audiolivros. Em outros países esse é um produto melhor aproveitado, ofertado e valorizado. Acredito que essa iniciativa da Tocalivros com a Global Editora promove esse serviço e aumenta o nível do que se oferece da modalidade de leitura. Além de apresentar a literatura brasileira de alto nível em um formato diferente.

Penso que os apreciadores da literatura de qualidade no Brasil ainda não saibam do potencial que há nos audiolivros. Quando produzidos com rigor, como houve com esse trabalho de “O Burrinho Pedrês”, não há discrepância em termos de qualidade entre os formatos impresso, digital e em áudio.

Foi também uma experiência de palmilhar Guimarães Rosa, pois tive que ler de perto, ou seja, com a maior atenção possível, pois para narrar uma história profissionalmente requer imersão total e que não haja dúvidas. Então, foi uma leitura detalhada e trabalhosa, mas que, ao fim, foi proveitosa porque me enriqueceu muito, fez-me imergir nas mais profundas camadas do conto e de seus personagens. Compreender o que o autor colocou na obra me proporcionou um grande prazer. Inclusive, espero que façamos o audiolivro de “Estas Estórias!”

 

Sobre Rubens Caribé

Ator, cantor e bailarino, Rubens Caribé aos 15 anos se especializou em canto, com aulas com Caio Ferraz e, posteriormente, entre os anos 1983 e 1990, teve aulas com Déa Mancuso, Nancy Miranda e Hellyane Karan.

No teatro, sua estrea foi no musical “Hair”, uma adaptação de Consuelo de Castro. Já para outro célebre musical, o “Era de Aquarius”, teve que aprender a dançar, então fez aulas com Marilena Ansaldi, Clarisse Abujamra e Val Folly. O ator também protagonizou como o ‘Príncipe Encantado’ em “A Bela Adormecida”, junto à atriz Myriam Rios, peça que ocorreu de 1987 a 1988.

Estreou na televisão em 1992 na minissérie “Anos rebeldes”, participou das novelas “Fera Ferida” em 1993, “Sangue do Meu Sangue” e “Malhação” em 1995, “Os Ossos do Barão” em 1997, entre outras teledramaturgias. Seu último trabalho como ator foi na série nacional “Cidade Invisível”, produzida pelo serviço de streaming Netflix.

Como narrador de audiolivros, começou em 2020, narrando “Sagarana”, e já contou também a história do livro “Hora e Vez de Augusto Matraga”, pela plataforma Tocalivros, que está disponível via web e também por meio do aplicativo gratuito para celular ou tablet.

 

Quem foi João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Publicou, em 1946, o seu primeiro livro, Sagarana, que foi recebido pela crítica com entusiasmo por sua capacidade narrativa e sua linguagem inventiva. Formado em Medicina, Rosa chegou a exercer o ofício em Minas Gerais e, posteriormente, seguiu carreira diplomática.

Além de Sagarana, constituiu uma obra notável com outros livros de primeira grandeza, como Primeiras EstóriasManuelzão e MiguilimTutameia – Terceiras EstóriasEstas Estórias e Grande Sertão: Veredas. Este último romance levou o autor a ser reconhecido no exterior.

Em 1961, Rosa recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra literária. Faleceu em 19 de novembro de 1967, no Rio de Janeiro.

 

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