Marina Colasanti fala da experiência com traduções literárias

A criação literária já é uma tradução. Uma tradução do mundo, em palavras e sentidos, do que o autor experimenta na própria vida e percebe em redor. A tradução de obras escritas em uma língua para outra seria então a tradução da tradução. Um trabalho que carrega muitas questões complexas, a fim de se alcançar alguma simplicidade e fidelidade ao texto original. Nesta semana, em que se comemora o Dia Internacional da Tradução (30 de setembro), trazemos uma conversa sobre o assunto com uma especialista, a escritora Marina Colasanti. Menina, experimentou a tradução de si mesma do italiano para o português, quando chegou ao Brasil com os pais. Uma vivência intensa, de língua e cultura. Na editora, ela foi a responsável pela tradução de quatro livros da argentina María Teresa Andruetto – O anel encantado, A menina, o coração e a casa, Stefano e O país de João. Também na Global, traduziu do inglês o livro Bicos quebrados, de Nathaniel Lachenmeyer.

Blog da Global: A tradução literária pode levar a alguns momentos de impasse, na busca do melhor sentido para uma frase ou palavra, mas mantendo o estilo do autor e o ritmo do texto, entre outras questões. Você viveu muitas vezes momentos assim? Pode dar um exemplo?

Marina Colasanti: Vivi infinitos momentos assim. Constantemente um tradutor enfrenta impasses desse tipo. Traduzir é lidar com o impasse. Eu sou extremamente obediente ao estilo do autor. Estou a seu serviço. Se, em certas circunstâncias, penso em usar um sinônimo, verifico antes se, na língua original, ele teria tido a mesma possibilidade vocabular, e respeito a escolha que ele fez.
Traduzir é um ato de amor e de respeito à escrita do outro. E pode exigir muita pesquisa. Quando traduzi O Gattopardo, de Lampedusa, fiz pesquisas históricas, de cinema, e através de contatos fiz pesquisas até em documentos raros na Sicília.

Blog da Global: Como foi sua primeira tradução literária?

Marina Colasanti: Dificílima!!!!! Traduzi O Segredo de Santa Vittoria, do inglês, para a Nova Fronteira. A cada frase, ia ao dicionário. Era um livro passado na Itália e na Segunda Guerra, o que me garantia uma familiaridade, seja com os ambientes, seja com as situações, mas, embora conhecesse inglês, estava ainda muito insegura.

Blog da Global: Como você acompanha as traduções feitas de sua obra em outras línguas? Costuma manter contato com os tradutores?

Marina Colasanti: Até agora, quase sempre, porque são traduções para línguas que conheço. A maioria, espanhol. Faço a revisão, dou dicas ao tradutor. Quando María Teresa Andruetto (de quem já traduzi vários livros para o português) fez a tradução do meu livro de poesia Rota de Colisão, trabalhamos muito juntas, trocando sugestões, revisando, acertando. Poesia é dificílima de traduzir, e o resultado acaba sendo sobretudo uma adaptação . Se houver rima, então, torna-se quase impossível manter ao mesmo tempo ritmo, cadência, rima e sentido.
Só não revisei a tradução para o alemão de Minha Guerra Alheia, porque não falo alemão.
E eu própria traduzi para o italiano A Mão na Massa, mas pedi uma revisão.

Blog da Global: O leitor normalmente nota a importância de uma boa tradução? É algo que se deve atentar quando se compra um livro escrito originalmente em outra língua?

Marina Colasanti: Depende do leitor. Eu não posso me impedir de ler “corrigindo” a tradução, anotando ao lado. E minha filha Fabiana, que também é tradutora, faz o mesmo. Todo mundo devia atentar para a tradução, o que é quase impossível na hora de comprar o livro, quando ainda não se leu mais do que poucas linhas. Mas o principal responsável por uma boa tradução é o editor, que escolhe o tradutor e o paga.