Darcy ‘da América Latina’ Ribeiro, por André Borges de Mattos

O professor doutor André Borges de Mattos não tem dúvida de que “não se entende a trajetória de Darcy Ribeiro sem o período do exílio”, após o Golpe Militar de 1964 no Brasil – e olha que não faltam na história dele períodos marcantes, como os anos em que viveu em tribos indígenas e sua experiência no ministério de João Goulart. André é um dos acadêmicos que não abrem mão de tratar em aula do pensamento de Darcy Ribeiro. O povo brasileiro (Global Editora), por exemplo, está presente nas reflexões que propõe a seus alunos na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Macuri, em Minas Gerais. Ele é autor da tese de doutorado em Ciências Sociais pela Unicamp Darcy Ribeiro: uma trajetória (1944-1982) e escreveu a apresentação do próximo lançamento de Darcy pela Global Editora, América Latina – A Pátria Grande. Na entrevista, o professor mostra como há pontos essenciais nessa obra que seguem muito atuais, apesar de terem sido escritos na década de 1970.

Blog da Global – Em que medida os ensaios que fazem parte do livro América Latina: A Pátria Grande ajudam o leitor a entender a América Latina de hoje?

André Borges de Mattos – Como um conjunto de textos reunidos, o livro oferece um excelente panorama sobre os diversos aspectos da história e das estruturas de poder do continente. O que o autor discute são as causas do atraso e a grande desigualdade que há décadas vem se perpetuando entre nós e que gera uma realidade trágica, do ponto de vista da sobrevivência, para os povos explorados nesse processo. É o caso dos povos indígenas, que Darcy conheceu de perto, entre outras minorias. O que me parece interessante é que, como o intelectual muito combativo que foi, e como um otimista nato, Darcy sempre tem em vista caminhos para superar tal situação. Se considerarmos que a América Latina ainda está longe da solução de suas dificuldades e de muitos dos problemas apontados por Darcy, o livro é uma excelente oportunidade para entender diferentes aspectos da difícil situação da América Latina hoje e para pensar nas alternativas possíveis.

Blog da Global – Darcy Ribeiro aponta nos ensaios as diferenças fundamentais entre os países da AL e também os pontos em comum. O Brasil, afinal, sob o ponto de vista de Darcy e sob o seu ponto de vista, historicamente e na prática, dá as costas aos vizinhos do continente?

André Borges de Mattos – Darcy Ribeiro foi um intelectual fortemente comprometido com os problemas do Brasil, sua verdadeira paixão. Por isso, até o fim da vida, dedicou-se a diferentes causas, como a indígena, a da educação e a política nacional. Quanto à América Latina, foi no exílio, entre 1964 e 1976, que ele veio a conhecer mais de perto os problemas dos países latino-americanos, já que viveu em alguns deles, inclusive próximo a personalidades políticas importantes. Assim, à preocupação sobre o problema do Brasil somou-se então a questão da América Latina. Darcy percebeu mais claramente que, mesmo com suas particularidades, o Brasil é parte de um contexto mais amplo, resultante, segundo ele, do processo da colonização ibérica. Os ensaios do livro buscam elucidar essa realidade. Não vejo, no pensamento de Darcy, uma clara ou sistemática preocupação com a forma como o Brasil se relaciona com os seus vizinhos. Mas deve ser destacado, no entanto, o caso de nossas elites, alienadas, que, segundo o autor, viram as costas não só para a América Latina, mas também para o próprio país. Note-se, porém, que a crítica não é somente à elite brasileira. Trata-se de uma característica comum aos países latino-americanos. Darcy diz claramente em uma das passagens do livro que a vocação dessas classes ricas, não só a brasileira, é mirar o “Centro” com olhos “pasmados”, o que significa um olhar de encantamento para as metrópoles ricas do mundo e não para a nossa realidade interna.

Mas a crítica à postura das elites não deve nos fazer pensar que não haja diferenças entre o Brasil e os demais países latino-americanos. Elas existem, naturalmente, mas como um grande mosaico que dá forma ao continente ou à Pátria Grande. Portanto, a aposta de Darcy é que a América Latina, diversa, mas como resultado de um mesmo processo colonizador, poderia, de forma unificada, superar as condições de atraso desde que tomasse para si um projeto autônomo, mais independente dos interesses estrangeiros.

Embora o mundo de lá para cá tenha se transformado, tornando-se, por exemplo, mais interligado com as novas tecnologias, creio que ainda é forte, entre os brasileiros, certo sentimento de que Brasil e América Latina são realidades diferentes.  E, neste sentido, muitos continuam mais familiarizados com a vida na Europa ou nos Estados Unidos do que com a que existe no dito “Brasil profundo”. Portanto, as ideias de Darcy sobre o comportamento das elites me parecem muito atuais. E, por isso, elas permitem, ainda hoje, entender que talvez devamos voltar os olhos para nós mesmos e nos pensar como países-irmãos que enfrentam problemas semelhantes, a despeito de nossas diferenças. Isso, além de possibilitar a busca de soluções conjuntas, permitiria celebrar a diversidade e evitar nacionalismos exacerbados.

Blog da Global – Que questões fundamentais Darcy Ribeiro aborda nesse livro que o senhor aconselha o leitor a dar especial atenção?

André Borges de Mattos – Um dos pontos fortes do livro, em minha opinião, é a perspectiva histórica. O leitor poderá conhecer o processo que levou à formação de um continente de certa forma subserviente aos interesses estrangeiros. Trata-se de um tema clássico do pensamento social brasileiro, ao qual Darcy, a partir de sua experiência como intelectual e político, dá uma grande contribuição. No livro, ele mostra que, ao contrário do que apregoavam e apregoam as elites, em suas “teorias do atraso e do progresso” (um dos tópicos do livro), o atraso da América Latina não se deve a fatores biológicos, à mestiçagem, ao clima, à herança católica ou mesmo ao fato de não termos sido colonizados por outros povos ditos mais avançados do que Portugal. Curiosamente, tópicos apontados e desconstruídos por ele que, infelizmente, ainda permanecem no imaginário de alguns. Chega-se assim à inevitável conclusão de que nossa condição se deve antes à forma com que atuam as elites, que desde o período colonial preocupam-se com suas próprias regalias ao custo do desenvolvimento dos povos da América Latina. Assim, talvez sejam os “ricos, bonitos e educados”, como Darcy escreve de forma provocadora em um dos capítulos, o nosso verdadeiro problema. Daí a importância de observar a forma como Darcy Ribeiro pensa a estrutura de poder e elabora sua “tipologia política latino-americana”, na qual busca desvendar a dinâmica das elites. No meu entender, é outro ponto forte da obra.

Blog da Global – Qual a grande vocação ainda não realizada dessa região do mundo que chamamos culturalmente de América Latina?

André Borges de Mattos – Darcy Ribeiro pensou a América Latina como uma utopia. Primeiro, uma utopia dos conquistadores, que logo identificaram nas terras recém-descobertas um tipo de paraíso original, no qual viviam povos supostamente puros e sem maldade. De alguma forma, era a imagem do Éden ou a “Visão do Paraíso”, para usar um termo do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Uma visão, porém, logo substituída pela crença de que esses mesmos povos deveriam ser salvos de sua condição de degenerescência, o que resultou, por exemplo, no dramático projeto de conversão religiosa de indígenas, cujo resultado não foi senão morte e desengano.

Mas o livro deixa transparecer também a utopia de Darcy Ribeiro de uma América Latina que, apesar dos problemas, possui inúmeras potencialidades para tornar-se livre, como os evidentes recursos naturais que fizeram a glória dos colonizadores, além de nossa riqueza cultural advinda do entrelaçamento de diferentes povos. Portanto, como o autor falou em outras ocasiões, trata-se de uma ideia de utopia como projeto, cujo sucesso depende da tomada de consciência das causas de nosso atraso e de tomar em nossas mãos o nosso destino.