Cora Coralina no carnaval de rua da Vila Pantanal

Nem a literatura nem os livros precisam ficar parados, à espera dos leitores. O Blog da Global conversou com pessoas que acreditam nisso. Mais: colocam esse pensamento em prática no trabalho da Biblioteca Espaço Alana, que funciona no Jardim Pantanal, Zona Leste de São Paulo. No Carnaval, a bibliotecária Elani Tabosa do Nascimento, o jornalista e folclorista Eduardo Freire e a estudante de Biblioteconomia Edilene Nascimento organizam um bloco com a participação da comunidade – mais de duzentas pessoas! –, com grandes autores como homenageados. Esse ano, a poeta Cora Coralina foi escolhida. Nesta entrevista, eles contam como nasceu o Carna-Autores e como fazem para iluminar a literatura na região.

* O Instituto Alana é uma organização social que atua de diversas maneiras para criar condições de bem-estar na sociedade. Conheça mais.

 

Blog da Global – Como nasceu a ideia do Carna-Autores? Por que essa dedicação à literatura e quem já foi homenageado, além da Cora Coralina esse ano?

Biblioteca Espaço Alana – Na verdade, a ideia de unir Carnaval e literatura não é nova. As escolas de samba em todo o Brasil têm profissionais de várias áreas (história, sociologia, comunicação, artes plásticas, entre outras) para pesquisar e fundamentar a história de seus enredos. É um trabalho minucioso, que aproxima toda a comunidade da personagem ou do fato escolhido para ser contado.

A novidade talvez esteja no fato de esse modelo de trabalho ser adotado por uma biblioteca comunitária, justamente para aproximar o nosso público das obras e dos autores clássicos da literatura nacional. Foi pensando nisso que, em 2013, batizado há época como CarnaLobato, por conta de nosso primeiro homenageado – Monteiro Lobato –, a Elani (Tabosa, bibliotecária responsável) idealizou a proposta e a Biblioteca Espaço Alana criou o Carna-Autores. A ideia é mostrar ao público a riqueza que há no universo literário. Isso é o que nos move. Acreditamos na força do conhecimento para transformar e fortalecer as sociedades, a fim de que haja a construção da identidade e da cultura local. O melhor de tudo é que, após os encontros e as conversas sobre o tema, tudo deságua em um resultado mais que prático, atravessando as ruas do bairro em um desfile tipicamente carnavalesco.

No primeiro ano (2013), homenageamos Monteiro Lobato. Após essa primeira edição, tivemos, infelizmente, dois anos de hiato provocados por um incêndio que acometeu as nossas instalações – em janeiro de 2014 – e só retomamos o Carna-Autores” em 2016, quando cantamos a própria história do Jardim Pantanal, além de celebrar o Centenário do Samba. Com o apoio da comunidade, fundamos no dia 5 de janeiro de 2016 o bloco carnavalesco “O Pantanal Chegou!”, cordão pelo qual a Biblioteca Espaço Alana e toda a comunidade têm agora dado vazão às homenagens aos seus mestres literários.

Nesta terceira edição do projeto, levamos às ruas do bairro um antigo e querido sonho: celebrar a vida e a obra da escritora, poeta e contista Cora Coralina. Em meio às mudanças e aos dissabores da vida, Cora nos inspirou com sua poesia a superar as adversidades, buscando na simplicidade o remédio para as dores “da alma”. Sua filosofia de recriar, dia após dia, nos levou a encontrar caminhos para recomeçar a história e refazer o “modo de fazer” da nossa vida. Por tudo isso, convidamos todos vocês a celebrar conosco o “Carna-Autores de Cora Coralina”. Afinal, ao mesmo tempo que a literatura nos engrandece, a sua leitura é uma das raras oportunidades em que podemos “plantar rosas, fazer doces e recriar sempre e sempre”. Amores, autores e sabores não só de um “Carna-Autores”, mas de uma vida inteira.

Blog da Global – Como a literatura é trabalhada com as crianças atendidas pela Biblioteca Espaço Alana? Por exemplo, elas tiveram algum contato especial com a obra de Cora Coralina esse ano por conta do tema do bloco? Como elas reagem normalmente a esse trabalho com a literatura?

Biblioteca Espaço Alana – Nós atuamos para promover essa mediação e esse diálogo, a fim de que a população do Jardim Pantanal tenha acesso e envolvimento com os livros e com a leitura. Assim, como em outras ações, no Carna-Autores são organizadas rodas de “leitura circular”, justamente para falar livremente da vida e da obra do homenageado. A reação, normalmente, é extremamente positiva, pois se trata de uma proposta de ampla interação, fora da tradicionalidade e que possibilita ouvir todas as vozes. Nós trabalhamos o conceito de “biblioteca viva”, que entende a leitura como transversal à educação, à saúde, à cultura e a todas as demais áreas necessárias ao desenvolvimento do indivíduo, seja ele criança, adolescente ou adulto. Acaba por ser um exercício de empatia e que promove a construção de autonomia e de fortalecimento social, nas quais as pessoas reconhecem a sua identidade cidadã.

Blog da Global – Contem por favor como vocês observam a realidade do Jardim Pantanal.

Biblioteca Espaço Alana – A história do Jardim Pantanal tem suas particularidades, mas no todo não difere dessa grave questão que a sociedade brasileira ainda precisa enfrentar com extrema coragem: a desigualdade social. Falamos de uma área que está situada na várzea natural do rio Tietê, classificada como Área de Proteção Ambiental (APA), num processo de ocupação e de construção identitária que já dura quase três décadas. Isso apenas para citar a complexa conjuntura que envolve a infraestrutura da comunidade. À parte as questões políticas e de jurisprudência, o nosso olhar é, sobretudo, humano. Falamos de pessoas que têm plena consciência de suas histórias e raízes e que têm um profundo desejo de reconhecimento perante a sociedade. Nós acreditamos piamente que a cultura e a educação são elementos-chave para que esse processo se dê em toda sua plenitude, horizontalidade e democracia de direitos e de conquistas. Como diz o renomado artista plástico potiguar Assis Costa, “toda cultura é viva, colorida, pulsante”, e o Pantanal é essa vida pulsante de cor e cultura e que merece ser reconhecida.