Arqueologia Global: achamos preciosa entrevista de Cascudo em 1982

Deu no Banorte Jornal, uma baita entrevista com Luís da Câmara Cascudo. Sim, um jornal empresarial não precisa trazer só informações burocráticas e internas. O jornalismo no Brasil já foi mais frequentemente assim: essa edição do Banorte Jornal é de 1982. Um dos textos publicados mostra que na época o litro da gasolina tinha subido de 85 para 104 cruzeiros (e um botijão de gás custava Cr$ 585,00). Até chegar no Real a nossa moeda trocou muitas vezes, o curso de datilografia anunciado na página 4 hoje não serve mais pra nada e a Olindina da página 15, primeira gerente geral da história do banco, deve estar aposentada. Mas o conteúdo da entrevista (e suas boas perguntas), essas não ficam antigas nunca. Porque o entrevistado justamente é quem eternizou em suas obras (publicadas pela Global Editora) o que a cultura brasileira tem de mais próprio, a partir de suas raízes. Esse maravilhoso documento histórico faz parte do acervo do Instituto Ludovicus, em Natal (RN), aos cuidados da neta do estudioso, Daliana Cascudo. A seguir, alguns trechos, que misturam observações do jornalista (provavelmente o editor Valdemir Velozo, já que a matéria não está assinada) e respostas de Cascudo, que passava as mãos nos cabelos como se penteasse uns pensamentos e puxasse outros, enquanto declarava um profundo amor: o ensino.

Camara Cascudo Jornal Banorte_post

Historiador, sociólogo, etnólogo, folclorista, autor de quase 150 livros, possuidor de tantos títulos que a vida e o conhecimento lhe deram, Luís da Câmara Cascudo, no entanto, prefere dois: provinciano incurável ou um brasileiro feliz. Provinciano incurável, como o chamou Afrânio Peixoto, porque, ao longo dos seus 83 anos de vida, embora convidado para lecionar e ser reitor de importantes universidades, no Brasil e no Exterior, optou pela pequena cidade de Natal, onde sempre viveu e produziu sua vasta obra.

Brasileiro feliz, como o define Diógenes da Cunha Lima, reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, porque ainda hoje, mesmo vítima de distúrbio circulatório, com a visão quase completamente perdida e com problemas de audição, permanece jovial, alegre, surpreendente em suas tiradas de humor.

Sobre ele, disse Carlos Drummond de Andrade: “Não é propriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, artes do nosso povo. Ele diz tintim por tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face dos mistérios e da realidade comezinha”.

 

Sobre a cultura popular

 O que o inglês chama de Folk-Lore, eu chamo de cultura popular. Esta é a primeira cultura, a cultura geral da qual fazem parte todas as outras.

Sobre política

– Nunca tive sedução pelas finanças nem pela política. Fui eleito deputado em 1930, sem querer e sem saber. Assumi no dia 1º de outubro e no dia 3 veio a Revolução e acabou com o meu mandato.

Sobre ser professor

– Nasci para ser professor. Amei a minha profissão como se ama a uma mulher. Eu morrerei professor. Olhe aí a casa cheia de jovens me perguntando coisas. Como eu voltaria à Cátedra e iria encontrar um clima de professor após oito anos de mandato? Fui professor de 1918 a 1968, quando me aposentei, após 50 anos de magistério.

Sobre mentiras históricas

– Eu não digo o nome, porque não sou cabotino. Em um dos seus livros, esse historiador descreve a paisagem da Bahia, no tempo de Mem de Sá e fala em coqueiros na ondulação dos morros. No tempo de Mem de Sá, não havia coqueiros no Brasil. O coqueiro é produto da Índia e foi plantado no Brasil. Aqui, na época, só tínhamos palmeiras.

Sobre as modas e as palavras

– Olhe a cabeleira dos homens, as barbas. Tudo século XVI, XVII. Depois vão desaparecer. Passaram? Não. No ano 2000, lá pelas tantas, volta tudo. Porque quem usa é o homem. E este homem sente saudades de certas modas, de certas coisas. Assim também é com a alimentação. É o ciclo da memória.

Tão inesperada quanto os seus gracejos, uma nova mudança na temática:

– Nada mais impressionante e que mais estimulou minha curiosidade do que a palavra vereador. Vereador vem de vereda. Porque ele era encarregado de mandar abrir veredas, policiá-las, para garantir o contato de uma população com outra. Vereador, o homem que faz veredas. Quem diria, heim?

Sorri, volta a passar as mãos pelos cabelos e impulsionar a cadeira de balanço para trás. Diz, nostálgico:

– Foram essas coisas que estudei. O pessoal todo discutindo política e eu estudando a História dos Nossos Gestos.

Sobre a casa, a idade, a família

– Nesta casa a minha mulher nasceu. Nesta casa nós namoramos e casamos. No quarto onde ela nasceu, nasceram os meus filhos. Casaram nesta sala, onde eu também casei. Há pouco tempo, um corretor veio me oferecer 5 milhões de cruzeiros para eu sair daqui, para se fazer um arranha-céu. Você sabe que nada sublima mais o recalque de um homem que um palavrão, um nome feio. Você dizer um nome feio é um banho morno por dentro. E eu disse tanto nome feio que você nem queira saber. Pra que diabo eu quero dinheiro, menino? Dinheiro é para circular, e se agora eu não circulo, quanto mais dinheiro.

Passa quase um minuto calado, olhos fechados, desta vez a cadeira de balanço está quieta. Abre os olhos devagar. As lentes os fazem enormes e o seu olhar perde-se na prateleira repleta de livros.

Volta a fechar os olhos. Passa uma menina-moça loura, olhos verdes, muito bonita. Ele grita: “Cadê o beijo do avô, menina?”

Ela o beija na testa, passa a mão pelos seus cabelos e sai correndo. Cascudo ri e diz como encantado:

– Hoje, meus professores são os meus netos.


Quer conhecer um pouco a casa de Cascudo que não foi vendida por 5 milhões de cruzeiros e saber como ela se tornou o Instituto Ludovicus? Assista a este vídeo: