A casa colorida de Câmara Cascudo

Dezembro já começou com festa na sede do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo. Os muros da casa onde o mestre viveu em Natal, Rio Grande do Norte, pesquisando e escrevendo sobre as raízes da cultura brasileira, ganharam novos desenhos e cores. Esse é um dos assuntos desta entrevista com a neta de Luís da Câmara Cascudo, Daliana Cascudo Roberti Leite, presidente do Ludovicus, uma guerreira incansável na manutenção e divulgação da memória do avô. Ela, inclusive, volta mais de trinta anos no tempo e revive essa época de festas na companhia dele e da família toda, na mesma casa.

Blog da Global – No Brasil, a manutenção da arte e da memória em tempos de crise costuma ser ainda mais crítica. Como foi 2016 para o Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo?

Daliana Cascudo – Somos uma instituição privada e buscamos parcerias institucionais para realizar nossos projetos, mesmo em tempos de crise como esses que vivemos. No ano de 2016 conseguimos realizar vários projetos por meio destas parcerias, como a que motivou a pintura do painel no muro externo de nossa instituição, realizada pelo artista plástico potiguar Sérgio Azol.

Blog da Global – Pois o ano termina com esse colorido novo nos muros do Instituto, a casa que quiseram comprar e Câmara Cascudo não quis vender de jeito nenhum. Os muros, assim como tudo o que tem dentro da casa, também falam com a sociedade?

Daliana Cascudo – A casa, onde hoje funciona o Ludovicus, tem muito do meu avô. Nela, ele morou por quase 40 anos e nunca quis vender, nem sair dela. Na entrada da casa, ele fixou um azulejo que trouxe de sua viagem a Portugal, realizada em 1948, com uma inscrição em latim que diz: “Encontrei meu porto. Esperança e fortuna, adeus. Muito me iludiste. Ide iludir a outros agora.” Esta inscrição diz muito do significado da casa para ele. Em muitas das correspondências mantidas com intelectuais e amigos do mundo todo, ele assinava como “Luís do Sobradinho”, numa simbiose perfeita homem-casa.

Mantemos a casa exatamente como ele deixou, com todo o seu mobiliário e as coleções museológicas que adquiriu ao longo da vida. É uma casa biográfica e tem a “cara” do dono!

Nosso muro externo já foi palco de duas intervenções artísticas de grafite, nos anos de 2012 e 2014, quando uma equipe de oito grafiteiros potiguares, coordenados por Miguel Carcará, desenvolveram o projeto artístico “Graffiti para Cascudo”. Neste ano de 2016, quando relembramos os 30 anos de “encantamento” (falecimento) dele, fizemos algo especial. O artista plástico potiguar Sérgio Azol, cuja principal temática é a estética do cangaço e o sertão, pintou um painel com 52 metros de comprimento, fazendo uma homenagem especial a Cascudo e remetendo a diversas obras dele com este tema, como Viajando o Sertão, Vaqueiros e Cantadores, Tradições populares da pecuária nordestina e Flor de Romances Trágicos. O trabalho também contou com a colaboração de uma equipe de grafiteiros locais, coordenados por Miguel Carcará. O resultado, colorido e vibrante, é um verdadeiro presente para a cidade do Natal através de um belíssimo exemplar de arte urbana. Diálogo completo entre Cascudo, Sertão, Arte Urbana e a cidade.

Blog da Global – E 2017? O que você tem de expectativa para o ano que chega, para o Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo?

Daliana Cascudo – O novo ano já chega para nós com muitas possibilidades interessantes. Participaremos das comemorações alusivas aos 200 anos da Revolução de 1817 no nosso estado, em parceria com o Grupo de Estudos André de Albuquerque, através de uma programação a ser desenvolvida em nossa instituição no mês de março de 2017, composta por mesas redondas, exposições e o relançamento da obra cascudiana A Casa de Cunhaú [História e Genealogia], que contempla o assunto em pauta.

Estamos também organizando, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, uma exposição fotográfica do nosso acervo no Museu de Ciências da Universidade de Coimbra. A exposição deve acontecer, simultaneamente, em ambas as instituições envolvidas: no Ludovicus faremos a exposição fotográfica do acervo etnográfico do Museu de Ciências da Universidade de Coimbra e lá eles farão a exposição fotográfica do nosso acervo.

Excelentes iniciativas que esperamos concretizar em 2017!

Blog da Global – Como você se lembra das passagens de ano com sua família, com seu avô? Ele era um otimista nessas datas, como de costume? Do Natal, sabemos, ele não gostava era de Papai Noel, né?

Daliana Cascudo – Sempre comemorávamos o Natal em família, aqui nesta casa onde funciona o Ludovicus e que era nossa residência. Para ele, o Natal era uma festa de família, e filhos, genros, noras e netos deviam estar presentes nesta comemoração. Gostava imensamente dos preparativos do Natal, arrumação da casa e preparação da ceia natalina, que ficavam ao encargo de minha avó, Dáhlia. Realmente não gostava nem de árvore de Natal, nem de Papai Noel, que considerava totalmente “importados” e sem relação com os costumes do povo brasileiro. Para ele, o grande símbolo natalino era o presépio, que sempre era montado na nossa sala de jantar, e o principal personagem era Jesus (e seu nascimento) e não Papai Noel (e os presentes). O meu avô era um “otimista irrecuperável”, como se denominava, e estas ocasiões eram reuniões familiares repletas de muita alegria e união. Saudades deste tempo!!!