As muitas vidas de Sagarana ou Guimarães Rosa numa hora destas?

Por Érico Melo

Em 20 de maio de 1937, como registrou num posfácio posteriormente suprimido, João Guimarães Rosa começou a escrever Sezão, coletânea de doze contos que constitui¹ a primeira versão de Sagarana. Iniciava-se a tortuosa trajetória escritural de um dos marcos miliários da ficção brasileira, que somente viria à luz quase dez anos depois. Seu relançamento pela Global, em primorosa edição, torna oportuna uma pequena recapitulação do processo criativo do escritor mineiro, inclusive para que possamos apreciar o livro no quadro mais amplo do conjunto da obra rosiana e na moldura atual de sua recepção.

No começo daquele sombrio 1937, Rosa vinha de vencer o disputado concurso de poesia da Academia Brasileira de Letras pelos poemas de Magma. Já não era, a rigor, um estreante, mesmo porque publicara quatro contos na revista O Cruzeiro (RJ) e em O Jornal (RJ), dos Diários Associados. Nos intervalos do expediente no Itamaraty, pretendendo consolidar a recente fama literária, principiou a composição de um livro de contos para participar do Concurso Humberto de Campos, da Livraria José Olympio.

A escrita efetiva de Sezão durou cerca de sete meses, e foi dada por concluída em 4 de dezembro. No último dia de 1937, Rosa inscreveu o livro no concurso com o título provisório Contos. Assinava o grosso volume datilografado um certo “Viator” (viajante, em latim), pseudônimo escolhido pelo autor em alusão a sua próxima transferência para o consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha.

Entrementes, em 14 de dezembro, Rosa fora promovido a cônsul de segunda classe. Apesar da barra pesada política – a ditadura do Estado Novo irrompera no começo de novembro –, o ex-médico rural sentia que a maré profissional e literária estava a seu favor. O prêmio Humberto de Campos oferecia ao vencedor três contos de réis, atualmente cerca de R$ 30 mil, mais uma edição de 2 mil exemplares pela prestigiosa José Olympio. O júri, exigente, incluía Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Prudente de Morais Neto, Osvaldo Dias da Costa e João Peregrino Júnior, todos figuras eminentes no ambiente literário carioca. Ganhar o concurso significaria a conquista de um dos maiores galardões literários do Brasil, além de garantir uma posição destacada no concorrido mercado editorial do Rio de Janeiro, então a capital do país.

Mas a primeira “vida” de Sagarana foi precocemente interrompida. Em março de 1938 Rosa viajou para Hamburgo, onde assumiu o cargo de cônsul adjunto. No consulado brasileiro conheceu Aracy Moebius de Carvalho, também diplomata, que seria sua segunda esposa. No fim do ano, aprendeu a dirigir e até comprou um carro. Entre o trabalho consular e a adaptação à nova vida na Europa, vários meses se passaram. Foi somente em março de 1939, quando Rosa praticamente já se esquecera do assunto, que a José Olympio divulgou o resultado do concurso de contos. Entre 63 livros participantes, o vencedor foi Maria Perigosa, de Luís Jardim. Viator obteve o segundo lugar, sem premiação.

Começava a segunda “vida” de Sagarana, subterrânea e ainda pouco conhecida, dada a escassa disponibilidade de documentos da época. Sabemos, pelo diário mantido por Rosa em Hamburgo, que os contos de Sezão sofreram “correções” intermitentes até ao menos 1942. Nesse ano, Brasil e Alemanha romperam relações diplomáticas; deportados, Rosa e sua mulher partiram com outros diplomatas de volta ao país. Semanas depois, já como segundo secretário, o escritor foi removido para a embaixada na Colômbia, e lá permaneceu durante dois anos. Nada se conhece sobre as metamorfoses de Sagarana nesse período.

O certo é que em junho de 1945, já de volta ao Rio, Rosa começou uma reformulação completa de Sezão, com a intenção de tentar publicá-lo. Eliminou três estórias², modificou sua sequência e, num trabalho intensivo que durou até outubro, transformou o livro falhado numa obra-prima. O conto-título “Sezão” virou “Sarapalha”. Outra curiosidade é que a última peça da coletânea, agora reduzida a nove partes, antes se intitulava “A oportunidade de Augusto Matraga”, e somente nessa versão final ou terceira “vida” de Sagarana adquiriu seu nome definitivo, sonoro e inesquecível.

Em novembro do mesmo ano, Rosa entregou os novos originais à pequena Editora Universal, do jornalista Caio Pinheiro. Cinco meses depois, em abril de 1946, começou a ser vendido nas livrarias cariocas o volume de 340 páginas com capa de Geraldo de Castro, hoje uma raridade bibliófila. Numa entrevista a Ascendino Leite, o autor explicou o belo neologismo do título, anunciador das inovações linguísticas das narrativas: “Sagarana: coisa que parece saga… Filei um sufixo do nheengatu”.

Em sua terceira encarnação, Sagarana arrasou. A celebridade literária de Rosa começou com um rodapé consagrador de Álvaro Lins, então o crítico mais influente do Brasil, publicado em 12 de abril no Correio da Manhã (RJ). Nas semanas seguintes, o entusiasmo de Lins seria secundado por outros nomes de vulto como Antonio Candido, Augusto Frederico Schmidt, Paulo Rónai, Sérgio Milliet, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, entre outros. A primeira edição se esgotou em menos de um mês.

O resto da história é bem conhecido. Rosa imediatamente se alçou à galeria de grandes autores da literatura brasileira, e até o lançamento de Corpo de baile e Grande sertão: veredas, em 1956, publicou mais duas edições de Sagarana, sempre rapidamente esgotadas pelo fascínio renovado dos leitores.

Não tratarei aqui das sucessivas transformações do livro em sua vida impressa, assunto que fica para outra oportunidade. Falemos agora de sua projeção no restante da obra rosiana e sobretudo dos motivos que tornam sua releitura tão necessária tantas décadas depois da primeira publicação.

Em 11 de maio de 1947, um ano depois da estrondosa estreia de Sagarana, Rosa escreveu uma longa carta ao tio Vicente Guimarães, em resposta a uma missiva do conterrâneo com críticas às dificuldades lexicais e sintáticas de seu “estilo”. A réplica veio ácida e enfática, num tom pouco usual entre os dois parentes. Rosa expôs ao tio, também escritor, uma verdadeira confissão de seu credo artístico.

Toda arte, dagora por diante, terá de ser, mais e mais, construção literária. Já entramos nos tempos novos, já estamos reabilitando a arte, depois de longo e infeliz período de relaxamento, de avacalhação da língua, de desprestígio do estilo, de primitivismo falso e de mau gosto. […] Quem pode, deve preparar-se, armar-se e lutar contra esse estado de coisas. É uma revolução branca, uma série de golpes de Estado. […] Entre centenas de “cafajestes”, e um circulozinho de “herméticos e transcendentes”, a gente tem de propor-se a levantar uma literatura clara, culta, rica e apresentável. Sem orgulhos nem vaidades. Só por dever de artista. E, até mesmo, por elementar patriotismo³.

Tratava-se, como vemos, não de cultivar preciosismos linguísticos, mas de combater os chavões beletrísticos e as fórmulas modernistas colocadas a serviço do empobrecimento da língua literária brasileira e da destruição da originalidade dialetal dos sertanejos. Em outras palavras, com Sagarana o escritor cordisburguense se armou até os dentes para declarar sucessivos estados de exceção textual e, ouvindo a si mesmo e ao sertão, instituir sua própria voz ficcional como ponta-de-lança de uma nova política do campo narrativo. Esse cerco ou sítio à literatura derivativa se implementa nos contos como suspensão permanente do espaço-tempo retórico da narrativa neorrealista. É a secreta aliança entre luz e silêncio, vozes e sombras que recria os lugares do sentido da travessia de personagens como Augusto Matraga, Sete-de-Ouros, Lalino Salãthiel e o Izé de “São Marcos”.

Pode-se dizer, portanto, que em Sagarana se encontra o núcleo original de muitos temas e motivos, mas também, e sobretudo, a fonte geradora da dicção revolucionária dos livros posteriores de Rosa.

Como reconheceram os críticos contemporâneos, a transcendência da emulação do real em Sagarana decorre da impressionante habilidade de Rosa em abrir de par em par os olhos e ouvidos de seu corpo móvel de Homo viator às “notícias do mundo” transmitidas pelos causos, palavras, bichos, plantas e paisagens mineiros. As estórias são propulsionadas pela ilustração científica do escritor cordisburguense, que se estende da geologia à hidrografia, da zoologia à geodésia. Relacionados através do daimon goethiano da poética rosiana, olho e ouvido, música e pintura se confundem amorosamente numa só Unidade, entretecida como movimento incessante das vozes da ficção.

Essa é talvez a maior maravilha de estórias como “São Marcos” e “Conversa de bois”, que justifica sua releitura sempre renovada. Na urdidura do concerto sutil entre as partes componentes do sertão-mundo em exploração, cada qual representada por uma das faces do poliedro de nove lados do livro, o dialogismo entre os contos e dos contos com o mundo continua a funcionar como uma resposta contundente à falta de diálogo do mundo real administrado. Estava aberto o caminho para as novelas de Corpo de baile e traçado o roteiro de Grande sertão: veredas.

Para encerrar, recordemos uma passagem do clássico Por que ler os clássicos, de Italo Calvino, que sintetiza muito bem o prodígio duradouro de Sagarana. Mais saboroso com o passar do tempo, à maneira dos grandes vinhos, o primeiro livro de ficções de Rosa se tornou um daqueles títulos incontornáveis de uma literatura, que “exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual”. Oitenta anos depois de sua gênese, neste momento de triunfo completo da incultura e da truculência, a lição imortal de sensibilidade, congraçamento, amor à natureza e dedicação irrestrita à arte proposta por Sagarana volta a irradiar um recado essencial contra o anti-humanismo e a feiura.

Érico Melo é doutor em literatura brasileira e pós-doutor em literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP).


¹ Um datiloscrito original de Sezão sobrevive no Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

² Além dos nove contos da versão definitiva, a primeira versão de Sagarana incluía “Questões de família”, “Uma história de amor” e “Bicho mau”. Esta última foi aproveitada no póstumo Estas estórias (1969), mas as duas primeiras acabaram destruídas pelo escritor, insatisfeito com sua realização.

³ Vicente Guimarães. Joãzito: A infância de Guimarães Rosa. São Paulo: Panda Books, 2006, p. 133-34.


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