Explorando Sagarana, o primeiro livro de João Guimarães Rosa

“Quero escrever livros que depois de amanhã não deixem de ser legíveis” – João Guimarães Rosa

Em 1946, aos 38 anos, o autor João Guimarães Rosa (1908-1967) publicou seu primeiro livro. Intitulado na época apenas de “Contos”, “Sagarana”, nome que lhe foi dado mais tarde, elucidou muito bem o estilo que viria a se consagrar como “a escrita rosiana” – e no elementos que constituíam a sua força. 

Apesar de ser o ponto de partida para as obras de Guimarães Rosa, “Sagarana” não é um livro simples ou tem histórias que podem ser absorvidas de maneira fácil ou leviana. A linguagem é rica, as situações são complexas e as descrições dos cenários são fundamentais na história, já que o sertão de Minas Gerais – onde as tramas ocorrem – é cheio de peculiaridades que formam não apenas a ambientação em si, mas servem também a própria narrativa do autor, em dois elementos que se completam. Esses aspectos fazem com que, apesar de complicada, a escrita de Guimarães também seja extremamente “imersiva”. Ou seja, é praticamente impossível não entrar de cabeça no universo criado pelo autor. 

É fácil perceber que por trás de cada obra do autor existe um projeto linguístico bem trabalhado e único. Talvez seja por esse motivo que hoje o autor ainda seja tão relevante na história da literatura brasileira e também no amplo escopo da literatura regionalista. Logo no começo dessa edição de “Sagarana”, publicada em março de 2019 pela Global, aparece a frase citada no começo deste texto, onde Guimarães Rosa fala sobre a sua vontade de criar algo que ultrapasse as barreiras do tempo e seja relevante para todos os dias futuros. De muitas formas, seu desejo se realizou e os contos presentes nas compilações revelam narrativas que são interessantes de destrinchar e analisar, além de carregarem uma característica atemporal. 

Com um total de 9 contos, a edição da Global contém notas e textos completos, sendo que um deles foi feito pela professora Emérita de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Walnice Nogueira Galvão. O outro texto é uma carta que o próprio João Guimarães Rosa enviou para João Condé, onde ele revela alguns pequenos segredos dos contos presentes no livro e fala sobre suas impressões das histórias que escreveu. O autor não chega exatamente a “explicar” tudo, mas fala um pouco sobre os personagens que lhe afetaram mais e o que procurava alcançar ao escrever cada um deles. Assim como qualquer pessoa que escreve, Guimarães se mostra descontente com o resultado de alguns, mas satisfeito com outros, demonstrando uma mentalidade certeira em relação ao que queria extrair da sua escrita.

“Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua” – “A Hora e Vez de Augusto Matraga” 

Entre os contos mais importantes de “Sagarana”, estão “O Burrinho Pedrês” e “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, sendo que ambos ressaltam e destacam muito bem o melhor que existe na escrita do autor. 

“O Burrice Pedrês” abre o livro e conta com uma riqueza de detalhes pertinente, ressaltando e criando descrições interessantes sobre a geografia local – e mais uma vez exemplificando exatamente o conhecimento profundo do autor por Minas Gerais. As paisagens descritas aqui demonstram “particularidades” que se traduzem em sentimentos, esses que também transbordam pelas palavras. 

Se prender nas paisagens que Guimarães descreve é muito fácil, já que elas são um elemento fundamental da narrativa (talvez o mais fundamental de todos), mas a aparição dos personagens e as situações em que eles estão inseridos garante a curiosidade do leitor. De fato, a trama acompanha o burrinho Sete-de-Ouros, que com o passar da sua trajetória teve outros apelidos, mas são os vaqueiros que carregam as “ações” presentes no conto. Mesmo assim, o burrinho é um agente importante nos acontecimentos e sua presença é um fator determinante na vida de todos aqueles citados na obra, assim como a relação que eles criam entre si, moldando uma narrativa com elementos de fábula. Esse é, com certeza, o conto mais “simples” de entender, mas, como em todas as obras de Guimarães, é possível extrair algo satisfatório do resultado final. E apesar do resultado final de “A Hora e Vez de Augusto Matraga” ser bem parecido, tudo se desenrola de uma maneira diferente. Como aponta o próprio autor: “quanto a forma, representa para mim uma vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.” 

A versatilidade de Guimarães em abordar em histórias complexas é reforçada por esse conto que, por sua vez, encerra “Sagarana”. Ao relatar situações ambíguas, a história acompanha o cotidiano de Nhô Augusto com o passar dos anos. O caráter e a vida do protagonista são mostrados por fragmentos, que no final compõem uma jornada profunda sobre um homem que usa e abusa do “mandonismo” (situações que reforçam as dinâmicas do poder no Brasil). Sua origem, a criação do protagonista, a falta de figuras paternas na sua vida e a forma como ele lida com as coisas que acontecem com ele mesmo e aqueles ao seu redor, reforçam a construção de um ser humano complexo – e fazem um retrato pertinente de um homem que erra, se arrepende e entra em depressão, mas que também vai se curando e tem um arco que quase pode ter considerado de redenção. 

Apesar de ser a primeira obra de João Guimarães Rosa, é importante revisitar e aprofundar os contos de “Sagarana” após já ter tido um contato prévio com outros escritos do autor, sendo uma leitura que se faz e refaz a cada nova leitura. Dessa forma, a complexidade deste pode ser absorvida com totalidade, assim como a importância e atemporalidade das aventuras abordadas aqui pelo autor. Todos os contos abordam situações humanas e a troca de experiência entre os mesmos é algo fundamental, exemplificando muito porque, afinal, Guimarães Rosa é tão importante e icônico. 

“As Aventuras não têm tempo, não tem princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são minha minhas maiores aventuras.”